Aí cheguei em Londres.

Passando pela imigração a primeira coisa que fiz foi avisar a D. Mãe que não seria dessa vez que eu seria deportada e voltaria para o Brasil. 

Saindo do aeroporto peguei o ônibus certo, para o trem certo e até consegui pegar o trem para o lado certo. Assim, era óbvio que mais cedo ou mais tarde eu iria me perder. Saindo do metro fui para o lado errado da rua. Pelo menos descobri o erro em menos de 3 quarteirões.  

Chegando ao Hostel comecei o treinamento, que por sorte era com uma brasileira, o que facilitava a vida. A grande missão era limpar os banheiros e manter a cozinha em ordem, que apesar de ser um trabalho braçal e pesado, não representa nenhum problema. 

Na manhã seguinte o treino era com uma espanhola, o que também não foi muito difícil. Era a mesma coisa da noite, mas ao invés de cuidar da cozinha tem que limpar todos os quartos. 

Ao terminar o turno resolvi sair pela cidade. 

Estou hospedada em uma região extremamente central. Em duas horas de caminhada passei por Kensington Park (antiga residência da Lady Di e atual residência do Príncipe Willian), Green Park, Hyde Park, Palácio de Buckingham e cheguei, finalmente, ao Big Ben.   

Somente ao olhar para cima e ver a torre do relógio entendi realmente onde estava. Olhei em volta e em alguns minutos as badaladas soaram marcando mais uma hora. É tudo de uma grandiosidade e de uma beleza extraordinária. 

   

Andar pelos parques bem cuidados, entre árvores nuas, sentindo o frio e a garoa fina teve a capacidade de me transportar para o que eu estava vivendo e entender onde pretendo passar os próximos 6 meses. 

  
Eu estou em Londres. 

Uma cidade grande, cheia de gente, um mundo inteiro perdido em inúmeras linhas de metro e icônicos ônibus de dois andares, que por mais incrível que pareça não é nem um pouco caótica. 

Não sei como, porém a cidade segue uma lógica própria e que faz realmente algum sentido. 

  
E, estranhamente, me senti confortável.  

Aqui me sinto em casa. 

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E aqui estou eu na terra da Rainha.

Ainda não acredito que estou aqui, é como um sonho… 

Vamos começar do começo. 

Vir para Londres é um desejo antigo. É Londres, uma das cidades mais cosmopolitas do mundo, simplesmente é Londres. 

Quando comecei minha viagem já estava nos planos, mas UK é caro e eu não tinha como bancar. Em Malta consegui juntar um dinheiro no verão e Londres voltou a entrar em foco. 

Comprei uma passagem Malta-Londres sem ter nenhuma idéia de onde morar ou o que fazer. 

Busquei através do Worldpackers, me inscrevi para um Hostel, mas eles nem se deram ao trabalho de me responder. Me inscrevi para outro que me repondeu quase na hora, fizemos uma entrevista por Skype, o gerente gostou de mim, porém no último segundo veio a pergunta fatal: você tem passaporte europeu ou Work Permit? Não tenho nenhum dos dois, o que fazer? Segundo o gerente, podíamos tentar tirar o Work Permit, mas para essa vaga de novembro não daria tempo, talvez eu pudesse vir trabalhar no próximo verão. 

Para quem estava sem perspectiva nenhum, essa já era alguma. Decidi vir para Londres, ficar umas 2 ou 3 semanas e se não rolasse nada, ir para outro lugar mais barato. 

Me deu os 5 segundos de costume e resolvi mandar meu CV direto para o e-mail daquele primeiro Hostel que me ignorou. No mesmo dia o gerente me respondeu dizendo que não tinha mais a vaga, mas que eu poderia fica no Hostel por um valor fixo a semana e se aparecesse uma vaga eu já estava por lá. Para quem era até então uma homeless em Londres, essa me pareceu uma boa opção. 

Passou mais uns dias e o plano era ir para Londres, ficar no Hostel, procurar um trabalho e se nada desse certo, ir para outro país. Até que o gerente me mandou um e-mail dizendo que tinha surgido uma vaga e se eu tivesse interesse poderíamos fazer uma entrevista por Skype. Fiz a entrevista em uma quinta-feira e ele me falou que se até a próxima quarta não me respondesse era porque tinha escolhido outra pessoa. 

A quarta-feira veio e passou sem nenhuma mensagem, então entendi que não tinha sido escolhida. Na quinta fui jantar na casa de um amigo e eis que recebo um e-mail do gerente dizendo que estava muito feliz por me dizer que eu tinha sido escolhida e questionando se eu poderia começar no mesmo dia em que chegava em Londres.  

Assim, uma semana antes de embarcar eu tinha um “emprego” e um lugar para ficar, o que foi um enorme alívio. 

Eu não estava muito preocupada com a entrada em Londres, mas Dona Mãe estava tão apavorada que me botou em pânico. 

Hora de imprimir a papelada, saldo do cartão VTM, extrato da conta de D. Mãe, carta de responsabilização da mesma, reserva do Hostel. Na noite anterior à viagem me deu mais dos 5 segundos e resolvi montar um roteiro de 3 meses no Reino Unido (tempo da minha passagem de volta). Fiz a relação de cidades pelas quais iria passar com três hostels para cada, com o rating no Booking.com e o preço da diária. 

Chegando no aeroporto a imigração estava bem vazia, com gente, mas sem fila. Fui atendida por uma mulher, entreguei meu passaporte e o papel que preenchemos antes de passarmos pelos agentes. 

A primeira coisa que ela viu foi minha data de entrada pela Espanha e a data de saída por Malta naquele dia. Me perguntou porque eu estava a tanto tempo na Europa. Disse que estive em Malta por 6 meses fazendo um curso de inglês. Entreguei minha permissão de residência em Malta e o Certificado do Curso. Ela fez as contas e me perguntou porque eu fiz um curso de 6 meses, mas estava há 8 meses na Europa. Contei que tinha ficado 40 dias na Espanha, que tinha feito o Camino de Santiago e em maio fui para Malta. Ela questionou como eu iria me sustentar em UK, entreguei meus comprovantes, ela olhou bem para os comprovantes, olhou bem para mim e perguntou pelos originais. Disse que aquele eram os papéis que eu tinha, ela me disse que aquelas eram cópias e eles não aceitavam cópias. 

Nessa hora comecei a tremer e igual vara verde e já me via deportada. 

Eu disse que tinha algum valor em dinheiro. Ela me pediu para ver. Dei todo o meu dinheiro, o pouco que tinha em libra, o que tinha em euro e até meus poucos dólares (inclusive aquele $ 1 que é para dar sorte). Ela me pediu licença para contar. Contou nota por nota. Quanto terminou, tentei falar alguma coisa, mas ela me interrompeu e me disse que estava fazendo anotações, que era para eu esperar.  

Eu tremia. 

Ela olhou para mim e perguntou porque eu iria ficar 3 meses em UK. Eu disse novamente que iria viajar por toda UK, que começaria em Londres, subiria até a Escócia e depois desceria para o País de Gales. Então, mostrei meu plano de viagem. Expliquei que tinha pesquisado somente os Hostel na Inglaterra, que representava o primeiro mês, mas que ainda iria pesquisar os da Escócia e País de Gales.  

Ela me pediu minha passagem de saída. Quando eu entreguei, ela viu que era para a Alemanha. Me perguntou porque eu iria para a Alemanha e não de volta para o Brasil. Disse que iria fazer o mesmo que estava fazendo em UK, iria passar um mês viajando pela Alemanha e só depois voltaria para o Brasil.  

Ela parou, anotou mais, olhou novamente meus papéis, meu passaporte e me disse: 

“Quando o agente te perguntar você tem que ter todos os documentos originais. Ninguém aceita cópia. Vou te dar dois conselhos, você pode decidir seguir ou não, é contigo. Antes de viajar para a Alemanha, tenha tudo original e também tenha a passagem de volta para o Brasil. Você tem tudo direitinho. Tem os documentos da estadia em Malta, o comprovante do curso, dinheiro para se manter, mas nem sempre isso é suficiente. Vou carimbar seu passaporte e você poderá ficar aqui legalmente por 6 meses, mas escute meus conselhos.” 

Eu estava tão atordoada que mal consegui juntar meus papéis, pegar meu passaporte e colocar um pé na frente do outro para sair dali.  

Queria dar um beijo estalado na agente quando ela me devolveu o passaporte carimbado.  

Agradeci por tudo, principalmente pelo conselho e dei um jeito de sair quase correndo. 

Saindo, a aventura só estava começando. Eu ainda precisava descobrir como sair do aeroporto e chegar na tão sonhada Londres e no aguardado Hostel.  

Quando decidi sair do país a intenção sempre foi a de viver em diferentes lugares por tempo indeterminado, pelo tempo que eu quisesse e enquanto me fizesse bem.

Falo sobre viver de verdade, de saber qual mercado é mais barato, para onde vão as linhas de ônibus e não somente ficar uma semana e conhecer os pontos turísticos. 

Indo para Malta com planos de ficar ao menos 4 meses já era um começo. 

Ao chegar e começar as aulas percebi que aquele mundo de estudante era somente uma ilusão, uma fantasia adolescente. 

Então comecei a procurar emprego, o que também sempre esteve nos planos. 

Munida com a cara de pau com a qual nasci, a coragem adquirida à duras penas e o inglês meia-boca, pouco mais de um mês depois de chegar à Malta arrumei um freelancer como garçonete em um casamento. 

Apesar do nervosismo e da insegurança, tudo correu bem e começaram a me chamar com freqüência. Pouco depois, pela mesma agência, fui trabalhar em um restaurante onde fiquei até a hora de ir embora. 

E o que aprendi trabalhando como garçonete?

Aprendi que quando trabalhamos nesse tipo de serviço viramos fantasmas.

As pessoas que estão sendo servidas simplesmente não nos vêem. Tentamos passar com uma pilha de copos ou colocar um prato na mesa enquanto seguramos outros dois no outro braço e as pessoas nem por um segundo pensam em nos dar licença ou nos ajudar. 

Porque não existimos. 

Porque somos serviçais. 

E, tem horas que temos que agradecer por sermos invisíveis, pois a outra opção é ser tratado com desprezo, como se fossemos seres inferiores e sofrer todo tipo de humilhação.  

Eu tive sorte. 

Não passei por nada extremo, mas pequenas coisas aconteciam o tempo todo. 

E, o que ninguém sabe é que mesmo durante um dia ruim, quando um cliente nos da um sorriso sincero, conversa conosco olhando nos nossos olhos, nos ajuda de alguma forma ou simplesmente nos agradece com alegria, faz com que mude todo o cenário e nos relembre que existimos, que somos reais e que não somos inferiores a ninguém. 

Eu sempre tive uma boa relação com garçons, seguranças, porteiros, etc, mas só agora aprendi que ser gentil pode mudar o dia.

Eu aprendi a ser mais humilde. 

Aliás, maior e melhor que as coisas ruins, foram as boas descobertas. 

Aprendi que trabalho em equipe não é aquela baboseira que os chefes de repartições e os escritores de auto-ajuda adoram.  

Trabalho em equipe é cobrir o seu colega para ele poder ir ao banheiro, é alguém guardar um pouco de comida para você comer depois que a correria diminuir, é passar pela sua seção e descobrir que ela já foi limpa por um colega que estava mais livre, é tomar o melhor “pineapple malibu” do mundo enquando acha que o mundo vai acabar, é dividir a rara gorjeta no final do dia, é comentar dos clientes atrás do balcão e dar risada das muitas excentricidades.  

Eu acabei por descobrir o universo que existe por trás de um grande evento ou de um restaurante e a entender a correria na cozinha para que todos os pratos saiam perfeitos. 

No final das contas aprendi a respeitar ainda mais o trabalho desses “seres invisíveis”. 

E como sou uma pessoa de sorte, durante essa minha caminhada de descobertas e aprendizagem, conheci pessoas maravilhosas. 

Pessoas que me ensinaram, que me aconselharam, que me distraíram, que ouviram minhas explosões de raiva e impotência (mesmo que num inglês capenga), que me ajudaram e que me acolheram como naquele tipo de família que a gente escolhe. 

E por isso, por todo o carinho e compreensão, serei eternamente grata.