Andei sumida porque não sei bem o que escrever…

Terminei o Camino e não quis parar para pensar nas consequências que isso terá na minha vida. 

E, sendo sincera, ainda não quero pensar nisto. Ainda não entendi direito o que está mudando. 

Eu cheguei finalmente em Santiago de Compostela em 05/05.  

O que é realmente um feito. Sejamos sinceros, quem em sã consciência anda mais de 800 km em 33 dias enfrentando frio, calor, sol, chuva, dor, cansaço, solidão, muitas vezes tudo junto e no mesmo dia?!?!? 

Mas, como disse, ainda não descobri qual seria minha grande revelação. Ou são todas aquelas coisas que descobri na metade do Camino. 

Que a vaidade é pura ilusão, que agora tenho a certeza de que precisamos de pouco para viver, que o corpo e a mente são indissociáveis, que sou completamente masoquista. 

Porém, posso afirmar que coleciono alguns importantes momentos:

A chegada sozinha em Saint Jean Pied-de-Port; 

  
Ver o Albergue de Roncesvalles depois do primeiro dia de caminhada; 

Molhar os pés cansados e com bolhas no rio que corta Zubiri logo nos primeiros dias; 

Sentir o prazer e a dor de andar por horas sozinha;

Conseguir ouvir as mensagens que seu corpo manda e que no dia-a-dia estamos tão atribulados que não temos tempo e/ou paciência para ouvir; 

Tirar um dia de folga, sentar ao sol e lagartixar o dia todo;

  
Tentar sentir as pedras num lugar marcado, tentar sentir as milhares de pessoas que passaram pelo mesmo lugar, com a mesma intenção;

  
Aprender que para quem sabe o que procura os sinais e indícios estão espalhados por todos os lugares e, normalmente, bem debaixo de nossos narizes; 

  
Conhecer pessoas incríveis e ganhar mais que amigos, ganhar irmãos para toda a vida; 

Partilhar uma refeição simples com todos, sejam conhecidos ou não; 

  
Acompanhar e devorar as diferentes arquiteturas, as “ghost towns” pelo Camino, as diferentes culturas; 

Partir na hora certa, mesmo que doa, mesmo que tenha deixar pedaços pelos caminhos;

Seguir a intuição e encontrar a “wise woman” em uma singela cidade;

Tomar a decisão errada, mas não se desesperar;

Deixar minha pedra, ganhada de um boliviano e que carregava faz mais de um ano, aos pés da Cruz de Fierro;

  
Chegar sozinha em ‘O Cebreiro’, pois cada pessoa que faz o Camino tem algum lugar especial de chegada. Para a maioria é propriamente Santiago, para outros a Cruz de Fierro, onde deixam seus pesos, dores e arrependimentos para trás, quem sabe Finisterra, o Fim da Terra. Para mim era chegar em O Cebreiro, um pueblito no começo da Galícia, cravado no alto da montanha, com forte influência Celta. Não sei por que para mim era tão importante chegar lá, só sei que só então tive consciência do que estava fazendo, só então me senti em completa comunhão com o Camino, somente sozinha pude contemplar a imensidão do que estava fazendo e então ganhar minha real ‘Compostela’;

  
Chegar em Monte do Gozo, que foi onde realmente fiquei emocionada e, sentir a imensa Santiago pulsando lá embaixo, tão perto e tão longe que 6 km viram uma torturante eternidade; 

  
Ver a Cathedral, ver o Bota-Fumeiro, ouvir as diversas línguas, a emoção em todos os idiomas, os cheiros, os risos, os choros, os abraços, os beijos;

  
Sentir paz e vitória por ter completado um objetivo tão duro e ao mesmo tempo se sentir somente um grão de areia junto com todos os que há centenas de anos trilharam o mesmo Camino, um grão de areia que estará ali para todos aqueles que seguirem pelo Camino depois de nós; 

E entender que somos sós, somos indivíduos, somos particulares.

Mas essencialmente somos nós, somos múltiplos.

Que somos completos em nós mesmos.

Mas que somente em sociedade, somente com outras pessoas completas em si mesmas, podemos exercer nossa plena individualidade.

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