Dos lugares: Paceville

Quando cheguei em Malta tive primeiro que me situar, entender onde eu estava, quem eram essas pessoas e qual a lógica desse lugar.

Em maio ainda não era verão e o clima não era dos mais quentes.

Então, primeiro lugar a se conhecer: Paceville. 

O que é Paceville? 

Antes de tentar explicar o que é Paceville, tenho que explicar qual o espírito de Malta. 

Aqui é uma mistura de Malhação, Big Brother e Lost. 

Malhação, porque é como se vivêssemos eternamente numa novela adolescente, que consiste em arrumar um “namoradinho”, beber nas pool party, arrumar intriga com essa ou aquela garota que paquerou esse ou aquele menino, etc. E não se enganem, nem só de adolescente esse mundo gira. O que mais tem é mulheres e homens feitos agindo como se tivessem 15 anos. 

Big Brother, porque isso é um universo paralelo, onde tudo é muito intenso e em que toda semana alguém é “eliminado”. Você conhece alguém, fica amigo, se apega e semana seguinte, cadê?! Sumiu. Foi embora… 

E Lost, pois essa ilha realmente é um universo paralelo. Até o tempo aqui corre diferente, eu acho. Já estou no Halloween e acho que no Brasil ainda não foi nem meu aniversário.  

Então, Paceville…

Imagina tudo isso, toda essa loucura concentrada em uma rua cheia de baladas, onde não se paga nada para entrar? 

Aliás, até parece a Augusta. É uma balada, um puteiro, uma balada um puteiro. Só que aqui não é puteiro, é Gentleman’s Club. As garotas só fazem strip, sexo é proibido. De verdade. 

O que difere da Augusta (Ahh…. A Augusta… Alt+Tab no Anexo B, Damaris me fazendo sair de casa para enfrentar fila no frio, as travas dando oi, o esquenta na Roosevelt… Ahh, a Augusta…) é o tipo de música.  

Aqui impera o reggaeton colombiano, que é uma delícia de dançar e em doses homeopáticas, não mata ninguém.

Mas… Todos, eu disse TODOS os bares só tocam reggaeton. E exatamente as mesmas músicas.

Que são, por ordem de repetição:

Bailando – Enrique Iglesias

http://youtu.be/NUsoVlDFqZg

El Serrucho – Mr. Black

http://youtu.be/thjYtBM0-hc

Detalhe: essas duas eu já conhecia pelos meus dias em Cartagena, na Colômbia. Ouvimos tanto que “Bailando no Serrucho” virou nome de grupo no Whatsapp.

Mas, para coroar tem essa:

El Taxi – Osmani Garcia Ft. Pitbull

http://youtu.be/qRp3-D3SMwI

Enfim… Está é Paceville. 

Boa para ir de vez em quando, tentar dançar igual as colombianas e dar umas boas risadas.

E, seguindo o espírito de Malta, aqui é como Las Vegas. O que acontece em Paceville, fica em Paceville.

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E lá se vão quase seis meses.
Quase seis meses de intercâmbio.

Quase seis meses de encontros e despedidas. 

É uma experiência louca essa de sair do conforto da vida cotidiana para mergulhar num outro país, com outra cultura, para aprender uma nova língua. 

Nesse tempo aqui conheci pessoas de muitos lugares. 

Descobri que as novelas brasileiras fazem sucesso no Cazaquistão e eles sabem mais nomes de atrizes brasileiras do que eu.

Que a Finlândia não é tão fria como imaginamos.

Que os asiáticos não conseguem pronunciar o “erre” mesmo (vide: pastel de flango). 

Que os turcos, no geral, são bonitos e simpáticos, mas não são muito afeitos a tomarem banho e os homens turcos são extremamente possessivos. 

Que os italianos são os mais calorosos, se compararmos com os gélidos europeus. 

Que os malteses são rudes e, ao mesmo tempo, são doces.

E que nós latino-americanos, independente do país, somos parecidos. E isso nos atrai e nos conforta.

Tudo aqui ganha outra proporção. Somos estudantes livres e podemos fazer qualquer coisa que quisermos. Ninguém nos conhece. Podemos assumir a personalidade que quisermos e fazer coisas que normalmente não faríamos simplesmente por não ter ninguém aqui que saiba que não faríamos.

Intenso. 

Acho que esse é um dos meus vícios. Não consigo viver “acomodada”. Preciso estar sempre vivendo algo intenso, vibrante, que me desafie e me provoque medo.

E eu adoro.

Mas aqui, entre as muitas coisas que estou aprendendo, tive que apreender a me despedir. 

Eu sou boa em despedidas, pois estou sempre “indo”. 

Há muito tempo me disseram:

“Você passa pelas pessoas, eu fico. Você vai acabar passando por mim também.”

Há pouco tempo me disseram:

“You should stay in Malta, it’s nice.”

“I like Malta, but it’s time to move on.”  

“Always moving.”

 “Only when I don’t have anything to hold me”

Mas aqui tive que aprender um outro tipo de despedida. Aquela em que as pessoas vão e eu fico. 

E já se foram muitas pessoas.

Pessoas com que morei um tempo logo no começo, pessoas com quem eu saía para conhecer a ilha, pessoas com que passei horas sentada conversando sobre a vida, o Universo e tudo o mais enquanto bebíamos uma garrafa de vinho e víamos o pôr-do-sol. 

  

Depois de várias dessas despedidas é de se imaginar que as coisas fiquem mais fáceis, mas não… Só piora… Os laços aumentam, o carinho, a importância… 

Nesses últimas semana, dei adeus para muitas pessoas importantes na minha passagem aqui.  

Meu casal predileto. A pessoa mais iluminada que conheci aqui (e que gostaria de ter passado muito mais tempo junto). Minha primeira hermana nessa ilha de Lost.

  
E com essas partidas sinto como se tivesse fechado um ciclo.

No caminho para o aeroporto e no último adeus à minha querida hermana, tive certeza disso.

Aprendi a amar essa ilha e todas as experiências que estou tendo serão importantíssimas por toda a minha vida. Mais do que somente aprender o inglês.

Mas minha passagem por Malta está encerrada.

Fiz tudo o que tinha para fazer aqui.

Agora, é tempo de ir.

Sei que irei voltar um dia, mas o próximo destino já me puxa pela mão…