Da série: Momentos que fazem valer

Depois de ficar 1 hora na fila para entrar no Mausoleu de Lenin, chega o momento de abrir a mochila e passar pelo detector de metais.
Abro a mochila, a coloco na mesa, o soldado me cumprimenta em inglês e me pergunta de onde sou.

Digo que sou do Brasil e segue o seguinte diálogo:
– Brasileira?

– Sim.

– Ronaldo! Futebol! Olimpíadas agora?!?! 

(Nessa ordem e com essa entonação)

– (risos) Sim… Ronaldo!!!

– Que legal!!! Bem vinda!!!

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Dos lugares : West Kirby

Daí resolvi sair de Londres e vir passar um tempo em Liverpool ver o que acontece.

Cheguei à noite e fui extremamente bem recebida por todo o staff. Em menos de duas horas uma das meninas me convidou para ir em um passeio no dia seguinte. 

Onde? Eu não sabia. Como? Eu não sabia. Mas vamos que sou do “vamos”. 

Saímos do Hostel por volta das 10h30 e seguimos em direção à estação de trem. Compramos um ticket válido pelo dia inteiro que era hop on/hop off (embarca e desembarca quantas vezes quiser) sentido Chester. 

E onde estávamos indo? 

West Kirby é uma cidade do outro lado do River Mersey, há uns 30 minutos de Liverpool. Pelo pouco que vi da cidade ela é toda bonitinha e aconchegante. A grande atração é que quando a maré baixa forma um lago separado da baia por um caminho construído no meio do mar.  

Chegamos com a maré alta sem saber que hora que baixaria e ao perguntarmos teríamos que esperar mais umas 3 horas. Resolvemos andar pela orla até uma cidade próxima e depois voltarmos de trem para vermos o caminho. 

O que não esperávamos é após somente uma hora e meia, depois de atravessarmos um campo de golfe e almoçarmos, vimos que a maré tinha começado a baixar e que já podíamos caminhar um bom pedaço. 

Como deve ser uma aventura digna desse nome, entramos mar à dentro buscando caminhos menos alagados, fugindo dos rios que a água formava e invariavelmente nos molhando até as canelas para ir em duas ilhas que é possível chegar andando. 

  
   
 
E quando chegamos a sensação foi ótima. Andar até o meio do mar, com as montanhas do País de Gales ao fundo… 

Caminhamos até a segunda e maior ilha e resolvemos voltar depois de pouco tempo, pois não sabíamos que horas a maré poderia subir novamente e não estava nos planos ficar ilhadas. 

  
Ao nos reaproximarmo-nos da vila pudemos, finalmente, entender o que era o tal caminho no lago. Quando a maré baixa um caminho circular aparece e a água retida no meio forma um interessante e curioso lago.  

E ver o sol cair entre o lago e o mar em uma passagem onde crianças, cachorros e esportistas curtiam o final da tarde foi um ótimo começo para essa nova etapa.

  

Custos principais:

Trem Liverpool/West Kirby – £ 5

Aí cheguei em Londres.

Passando pela imigração a primeira coisa que fiz foi avisar a D. Mãe que não seria dessa vez que eu seria deportada e voltaria para o Brasil. 

Saindo do aeroporto peguei o ônibus certo, para o trem certo e até consegui pegar o trem para o lado certo. Assim, era óbvio que mais cedo ou mais tarde eu iria me perder. Saindo do metro fui para o lado errado da rua. Pelo menos descobri o erro em menos de 3 quarteirões.  

Chegando ao Hostel comecei o treinamento, que por sorte era com uma brasileira, o que facilitava a vida. A grande missão era limpar os banheiros e manter a cozinha em ordem, que apesar de ser um trabalho braçal e pesado, não representa nenhum problema. 

Na manhã seguinte o treino era com uma espanhola, o que também não foi muito difícil. Era a mesma coisa da noite, mas ao invés de cuidar da cozinha tem que limpar todos os quartos. 

Ao terminar o turno resolvi sair pela cidade. 

Estou hospedada em uma região extremamente central. Em duas horas de caminhada passei por Kensington Park (antiga residência da Lady Di e atual residência do Príncipe Willian), Green Park, Hyde Park, Palácio de Buckingham e cheguei, finalmente, ao Big Ben.   

Somente ao olhar para cima e ver a torre do relógio entendi realmente onde estava. Olhei em volta e em alguns minutos as badaladas soaram marcando mais uma hora. É tudo de uma grandiosidade e de uma beleza extraordinária. 

   

Andar pelos parques bem cuidados, entre árvores nuas, sentindo o frio e a garoa fina teve a capacidade de me transportar para o que eu estava vivendo e entender onde pretendo passar os próximos 6 meses. 

  
Eu estou em Londres. 

Uma cidade grande, cheia de gente, um mundo inteiro perdido em inúmeras linhas de metro e icônicos ônibus de dois andares, que por mais incrível que pareça não é nem um pouco caótica. 

Não sei como, porém a cidade segue uma lógica própria e que faz realmente algum sentido. 

  
E, estranhamente, me senti confortável.  

Aqui me sinto em casa. 

E aqui estou eu na terra da Rainha.

Ainda não acredito que estou aqui, é como um sonho… 

Vamos começar do começo. 

Vir para Londres é um desejo antigo. É Londres, uma das cidades mais cosmopolitas do mundo, simplesmente é Londres. 

Quando comecei minha viagem já estava nos planos, mas UK é caro e eu não tinha como bancar. Em Malta consegui juntar um dinheiro no verão e Londres voltou a entrar em foco. 

Comprei uma passagem Malta-Londres sem ter nenhuma idéia de onde morar ou o que fazer. 

Busquei através do Worldpackers, me inscrevi para um Hostel, mas eles nem se deram ao trabalho de me responder. Me inscrevi para outro que me repondeu quase na hora, fizemos uma entrevista por Skype, o gerente gostou de mim, porém no último segundo veio a pergunta fatal: você tem passaporte europeu ou Work Permit? Não tenho nenhum dos dois, o que fazer? Segundo o gerente, podíamos tentar tirar o Work Permit, mas para essa vaga de novembro não daria tempo, talvez eu pudesse vir trabalhar no próximo verão. 

Para quem estava sem perspectiva nenhum, essa já era alguma. Decidi vir para Londres, ficar umas 2 ou 3 semanas e se não rolasse nada, ir para outro lugar mais barato. 

Me deu os 5 segundos de costume e resolvi mandar meu CV direto para o e-mail daquele primeiro Hostel que me ignorou. No mesmo dia o gerente me respondeu dizendo que não tinha mais a vaga, mas que eu poderia fica no Hostel por um valor fixo a semana e se aparecesse uma vaga eu já estava por lá. Para quem era até então uma homeless em Londres, essa me pareceu uma boa opção. 

Passou mais uns dias e o plano era ir para Londres, ficar no Hostel, procurar um trabalho e se nada desse certo, ir para outro país. Até que o gerente me mandou um e-mail dizendo que tinha surgido uma vaga e se eu tivesse interesse poderíamos fazer uma entrevista por Skype. Fiz a entrevista em uma quinta-feira e ele me falou que se até a próxima quarta não me respondesse era porque tinha escolhido outra pessoa. 

A quarta-feira veio e passou sem nenhuma mensagem, então entendi que não tinha sido escolhida. Na quinta fui jantar na casa de um amigo e eis que recebo um e-mail do gerente dizendo que estava muito feliz por me dizer que eu tinha sido escolhida e questionando se eu poderia começar no mesmo dia em que chegava em Londres.  

Assim, uma semana antes de embarcar eu tinha um “emprego” e um lugar para ficar, o que foi um enorme alívio. 

Eu não estava muito preocupada com a entrada em Londres, mas Dona Mãe estava tão apavorada que me botou em pânico. 

Hora de imprimir a papelada, saldo do cartão VTM, extrato da conta de D. Mãe, carta de responsabilização da mesma, reserva do Hostel. Na noite anterior à viagem me deu mais dos 5 segundos e resolvi montar um roteiro de 3 meses no Reino Unido (tempo da minha passagem de volta). Fiz a relação de cidades pelas quais iria passar com três hostels para cada, com o rating no Booking.com e o preço da diária. 

Chegando no aeroporto a imigração estava bem vazia, com gente, mas sem fila. Fui atendida por uma mulher, entreguei meu passaporte e o papel que preenchemos antes de passarmos pelos agentes. 

A primeira coisa que ela viu foi minha data de entrada pela Espanha e a data de saída por Malta naquele dia. Me perguntou porque eu estava a tanto tempo na Europa. Disse que estive em Malta por 6 meses fazendo um curso de inglês. Entreguei minha permissão de residência em Malta e o Certificado do Curso. Ela fez as contas e me perguntou porque eu fiz um curso de 6 meses, mas estava há 8 meses na Europa. Contei que tinha ficado 40 dias na Espanha, que tinha feito o Camino de Santiago e em maio fui para Malta. Ela questionou como eu iria me sustentar em UK, entreguei meus comprovantes, ela olhou bem para os comprovantes, olhou bem para mim e perguntou pelos originais. Disse que aquele eram os papéis que eu tinha, ela me disse que aquelas eram cópias e eles não aceitavam cópias. 

Nessa hora comecei a tremer e igual vara verde e já me via deportada. 

Eu disse que tinha algum valor em dinheiro. Ela me pediu para ver. Dei todo o meu dinheiro, o pouco que tinha em libra, o que tinha em euro e até meus poucos dólares (inclusive aquele $ 1 que é para dar sorte). Ela me pediu licença para contar. Contou nota por nota. Quanto terminou, tentei falar alguma coisa, mas ela me interrompeu e me disse que estava fazendo anotações, que era para eu esperar.  

Eu tremia. 

Ela olhou para mim e perguntou porque eu iria ficar 3 meses em UK. Eu disse novamente que iria viajar por toda UK, que começaria em Londres, subiria até a Escócia e depois desceria para o País de Gales. Então, mostrei meu plano de viagem. Expliquei que tinha pesquisado somente os Hostel na Inglaterra, que representava o primeiro mês, mas que ainda iria pesquisar os da Escócia e País de Gales.  

Ela me pediu minha passagem de saída. Quando eu entreguei, ela viu que era para a Alemanha. Me perguntou porque eu iria para a Alemanha e não de volta para o Brasil. Disse que iria fazer o mesmo que estava fazendo em UK, iria passar um mês viajando pela Alemanha e só depois voltaria para o Brasil.  

Ela parou, anotou mais, olhou novamente meus papéis, meu passaporte e me disse: 

“Quando o agente te perguntar você tem que ter todos os documentos originais. Ninguém aceita cópia. Vou te dar dois conselhos, você pode decidir seguir ou não, é contigo. Antes de viajar para a Alemanha, tenha tudo original e também tenha a passagem de volta para o Brasil. Você tem tudo direitinho. Tem os documentos da estadia em Malta, o comprovante do curso, dinheiro para se manter, mas nem sempre isso é suficiente. Vou carimbar seu passaporte e você poderá ficar aqui legalmente por 6 meses, mas escute meus conselhos.” 

Eu estava tão atordoada que mal consegui juntar meus papéis, pegar meu passaporte e colocar um pé na frente do outro para sair dali.  

Queria dar um beijo estalado na agente quando ela me devolveu o passaporte carimbado.  

Agradeci por tudo, principalmente pelo conselho e dei um jeito de sair quase correndo. 

Saindo, a aventura só estava começando. Eu ainda precisava descobrir como sair do aeroporto e chegar na tão sonhada Londres e no aguardado Hostel.  

Quando decidi sair do país a intenção sempre foi a de viver em diferentes lugares por tempo indeterminado, pelo tempo que eu quisesse e enquanto me fizesse bem.

Falo sobre viver de verdade, de saber qual mercado é mais barato, para onde vão as linhas de ônibus e não somente ficar uma semana e conhecer os pontos turísticos. 

Indo para Malta com planos de ficar ao menos 4 meses já era um começo. 

Ao chegar e começar as aulas percebi que aquele mundo de estudante era somente uma ilusão, uma fantasia adolescente. 

Então comecei a procurar emprego, o que também sempre esteve nos planos. 

Munida com a cara de pau com a qual nasci, a coragem adquirida à duras penas e o inglês meia-boca, pouco mais de um mês depois de chegar à Malta arrumei um freelancer como garçonete em um casamento. 

Apesar do nervosismo e da insegurança, tudo correu bem e começaram a me chamar com freqüência. Pouco depois, pela mesma agência, fui trabalhar em um restaurante onde fiquei até a hora de ir embora. 

E o que aprendi trabalhando como garçonete?

Aprendi que quando trabalhamos nesse tipo de serviço viramos fantasmas.

As pessoas que estão sendo servidas simplesmente não nos vêem. Tentamos passar com uma pilha de copos ou colocar um prato na mesa enquanto seguramos outros dois no outro braço e as pessoas nem por um segundo pensam em nos dar licença ou nos ajudar. 

Porque não existimos. 

Porque somos serviçais. 

E, tem horas que temos que agradecer por sermos invisíveis, pois a outra opção é ser tratado com desprezo, como se fossemos seres inferiores e sofrer todo tipo de humilhação.  

Eu tive sorte. 

Não passei por nada extremo, mas pequenas coisas aconteciam o tempo todo. 

E, o que ninguém sabe é que mesmo durante um dia ruim, quando um cliente nos da um sorriso sincero, conversa conosco olhando nos nossos olhos, nos ajuda de alguma forma ou simplesmente nos agradece com alegria, faz com que mude todo o cenário e nos relembre que existimos, que somos reais e que não somos inferiores a ninguém. 

Eu sempre tive uma boa relação com garçons, seguranças, porteiros, etc, mas só agora aprendi que ser gentil pode mudar o dia.

Eu aprendi a ser mais humilde. 

Aliás, maior e melhor que as coisas ruins, foram as boas descobertas. 

Aprendi que trabalho em equipe não é aquela baboseira que os chefes de repartições e os escritores de auto-ajuda adoram.  

Trabalho em equipe é cobrir o seu colega para ele poder ir ao banheiro, é alguém guardar um pouco de comida para você comer depois que a correria diminuir, é passar pela sua seção e descobrir que ela já foi limpa por um colega que estava mais livre, é tomar o melhor “pineapple malibu” do mundo enquando acha que o mundo vai acabar, é dividir a rara gorjeta no final do dia, é comentar dos clientes atrás do balcão e dar risada das muitas excentricidades.  

Eu acabei por descobrir o universo que existe por trás de um grande evento ou de um restaurante e a entender a correria na cozinha para que todos os pratos saiam perfeitos. 

No final das contas aprendi a respeitar ainda mais o trabalho desses “seres invisíveis”. 

E como sou uma pessoa de sorte, durante essa minha caminhada de descobertas e aprendizagem, conheci pessoas maravilhosas. 

Pessoas que me ensinaram, que me aconselharam, que me distraíram, que ouviram minhas explosões de raiva e impotência (mesmo que num inglês capenga), que me ajudaram e que me acolheram como naquele tipo de família que a gente escolhe. 

E por isso, por todo o carinho e compreensão, serei eternamente grata. 

Sabe, sou uma pessoa péssima para datas.

Sempre fui. 

Consigo lembrar somente o conceito geral, nunca datas exatas. 

E sei que o final de novembro marca duas datas importantes para mim, pelo mesmo “motivo”. 

Uma há 10 anos e outra há 5 anos. 

Há 10 anos eu tinha 17 anos de idade. 

Quem eu era aos 17 anos? 

Eu era uma adolescente que achava que conhecia todas as verdades do mundo. Que tinha certeza sobre tudo, sobre o que era o amor, sobre o que era a tristeza. 

Há 10 anos eu só usava preto e coturno, eu acreditava no anarquismo e tinha uma visão simplista do que era o comunismo. 

Há 10 anos eu achava que podia mudar o mundo somente me opondo a ele. 

Há 10 anos eu me sentia presa em uma vida medíocre e sonhava com um mundo imenso, cheio de novidade, cheio de coisas e de pessoas incríveis.

Há 10 anos eu não acreditava no amor e em relações monogâmicas. 

Há 10 anos eu me apaixonei. E eu demorei mais de 6 meses para entender que tinha me apaixonado. Eu fiz o inferno na vida desse meu “amor” justamente por não conseguir entender o que estava acontecendo comigo. 

E, mesmo sem entender, há 10 anos eu continuei. 

E vivi isso. Completamente. Com medo mesmo. 

Há 10 anos eu sabia que era sozinha. Que não podia contar com ninguém. Que tinha vários amigos, mas que quando chegasse a hora eu estaria por minha conta.  

Há 10 anos eu falei isso inúmeras vezes e me responderam que isso não era mais verdade. Que eu não estava mais sozinha e que quando tudo acabasse eu ainda teria um amigo. 

Há 10 anos eu acreditei nisso e baixei a guarda. Eu me deixei levar. 

E foi bom. Foi intenso. Foi verdadeiro. 

Há 6 anos eu passei pelo o que podemos chamar de “prova”. 

Há 6 anos eu passei pela maior provação da minha vida. 

Há 6 anos eu fui obrigada a confrontar as crenças que eu deveria ter. 

Há 6 anos me pediram para rezar pela vida da única pessoa que eu tenho na vida.  

Há 6 anos eu confirmei que eu não tinha para quem rezar. 

Há 6 anos eu busquei por aquele que me disse que eu não estaria sozinha.  

E ele me faltou. 

Há 6 anos, sozinha em uma escadaria, eu quebrei em mil pedaços. Nessa mesma escadaria eu juntei os pedaços, ignorei a dor e segui com minha vida. 

Há 6 anos eu tentei ser uma boa filha, uma boa irmã. 

Mas eu continuava quebrada. 

Há 6 anos eu passei um ano sem ser eu. Sem ser aquela de antes, sem estar naquele momento e sem saber quem viria a seguir. 

Há 6 anos eu vivi um “não-ano” sem saber que não vivia. 

Há 5 anos o encanto se desfez. Eu não era quem eu fui e não podia continuar sendo ninguém. 

Há 5 anos, também no final de novembro, tudo mudou. Eu voltei a ser de fato sozinha. Eu voltei a entender que quando a hora chegasse eu só poderia contar comigo mesma. 

Há 5 anos fiz minha primeira tatuagem, eu aluguei meu apartamento, eu voltei pra casa.

Eu enlouqueci há 5 anos. 

E, com o passar dos meses, eu voltei a ser eu. 

Há 4 anos eu voltei. Voltei mais arisca, mais desconfiada, mais fria. 

Há 4 anos, depois de tudo, não havia mais lugar para paixões, para promessas. 

E desde então eu fui seguindo, fui vivendo. 

Fria, arisca, mas vivendo. 

Há 1 ano decidi mudar tudo de novo. Decidi reviver aquele sonho adolescente onde o mundo nada mais é que lugares no mapa. 

Há 8 meses coloquei minha mochila nas costas e parti.

Além de todas as experiências bizarras, voltei a me interessar pelas pessoas. 

Há 6 meses voltei a sentir tesão físico e mental, mas como era para ser, agora não é nem a hora nem o lugar.

Mas me mostrou que não estou morta por dentro.

Que continuo viva e querendo viver toda e qualquer experiência que o mundo possa me proporcionar.

E enfim…

Hoje eu olho e vejo que me tornei a mulher que a menina de 17 anos queria ser. 

Aos 17 anos eu sonhava em morar fora, em conhecer outras culturas. 

Eu sonhava em conhecer o mundo. 

Hoje, aos 27 anos, estou há 6 meses morando em uma ilha no Mar Mediterrâneo. 

Hoje, aos 27 anos, sei que fui capaz de andar mais de 800 km em 33 dias fazendo o Camino de Santiago. 

Hoje, aos 27 anos, eu sou uma mulher forte, independente, determinada.  

Eu consigo olhar para o mundo com a certeza de que ele me espera e que depende somente de mim ir para um lugar ou para outro. 

Então olhando para trás, apesar de todos os pesares, sim, tenho certeza que me tornei a mulher que aquela menina queria ser. 

Dos lugares: Mosta Dome

Mosta é uma cidade situada bem no centro de Malta.

A principal atração é a St. Mary Church e por três bons motivos:
  
1. Ela é linda! E enorme. E sua arquitetura é inspirada no Pantheon de Roma.

2. Sua linda cúpula é uma das maiores da Europa com 61 metros de altura e 39,6 m de diâmetro.
  
3. Um dos fatos mais interessantes sobre essa igreja é um “suposto” milagre. Em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, a região de Mosta foi bombardeada e uma bomba entrou pela cúpula, rodou entre os mais de 300 fieis e não explodiu. Como é possível imaginar, os religiosos creditaram esse fato à um milagre de Deus. No entanto, mais de 7.000 bombas atiradas durante a guerra em Malta não explodiram e diz uma lenda que quando a bomba foi aberta havia o seguinte bilhete “Saudações dos funcionários da Skoda Works, Pilsen”. 

Gosto dessa versão, pois sendo a bomba produzida em uma Tchecoslováquia dominada pela Alemanha nazista demonstra um dos muitos atos de resistência à dominação imposta. 

De qualquer forma, a bomba não explodiu, a igreja virou uma lenda e é possível ver uma replica da mesma na Sacristia.
  

Dos lugares: Hagar Quim and Hypogeum Hal Saflieni

Um dos fatos mais interessantes de Malta é que mesmo sendo de uma geografia complexa e composta por 7 ilhas “perdidas” no meio do Mar Mediterrâneo, esse arquipélago é povoado desde o Período Neolítico. 

“Mas Shaula, que diabos isso significa?” ou “Para você que colou na escola”

O Período Neolítico teve início por volta de 8.000 A.C e é caracterizado por uma evolução social importante com a aplicação da agricultura e da criação de animais, possibilitando assim a fixação de moradias sociais e uma maior interação entre os homens de sua própria tribo e o comércio (aqui no sentido amplo da palavra: 1. Compra, venda ou troca de produtos e/ou valores; 2. Relações sociais ou de amizade) com tribos vizinhas. 

O Período Neolítico é conhecido também como Idade da Pedra Polida e consiste no último estágio da Idade da Pedra. Com o advento da escrita, tem-se fim a Idade da Pedra e inicia-se a Antigüidade, com o florescimento dos povos egípcios e gregos. 

“Tudo bem, Shaula, mas o que isso tem a ver com você, Malta e o intercâmbio?” 

Quando estava pesquisando lugares para fazer meu intercâmbio uma das coisas que me chamaram a atenção em Malta foi justamente sua história. 

Nesse país de apenas 316 km2 há diversos templos megalíticos, sendo os mais importantes de Hagar Qim, Mnajdra e Tarxien em Malta e Ggantija em Gozo. 

Estudos apontam que esses templos datam de 3.600 A.C, o que nos dá em torno de 5.600 anos. Para se ter uma idéia, as Pirâmides do Egito que ainda é um dos grandes mistérios da humanidade datam de 2.600 A.C., portanto, 1.000 anos depois da construção dos Templos Malteses. 

Para mim, uma socióloga chata, isso tem todo o encanto e interesse do mundo. 

 

Eu fui nos Templos de Hagar Qim e Mnjdra, por enquanto. O de Tarxien está fechado e o de Ggantija está na lista. Os Templos de Hagar Qim e Mnjdra são “templos irmãos” e estão a menos de 1 km um do outro, situados em uma planície perto do mar.  

Não se sabe muito sobre os povos que construíram esses templos. Pelas características de construção somente podemos fazer suposições. Como por exemplo que os cultos realizados nesses lugares era de natureza especial e somente algumas pessoas da tribo podiam participar, uma vez que todos os templo possuem “portas” selando o interior. Em Hagar Qim há um orifício que permite a entrada completa da luz quando do Solstício de Verão, o que supõe uma função astrológica do Templo, podendo assim fazerem a contagem das estações do ano. Porém, do lado de fora dessa abertura há um altar. Por que um altar do lado de fora, na mesma direção que o Solstício? Será que em determinadas datas havia uma celebração aberta a todos e desse modo o interior do Templo continuava resguardado dos olhares mundanos?

  Abertura para o Solstício 

  Altar externo

Apesar da antigüidade desses Templos, as técnicas de construção são esplendidas. As pedras se encaixam em perfeita simetria e não há o que se discutir sobre a qualidade do trabalho, afinal se passaram mais de 5.000 anos e esses templos ainda estão de pé.   

O Hypogeum Hal-Saflieni está datado da mesma época e imagina-se que à princípio foi um santuário e depois tornou-se uma necrópole. Porém há um detalhe que o torna diferente de qualquer ruína: é o único templo subterrâneo do mundo.

Ele foi descoberto durante construções na cidade de Paola em 1.902 e é composto por 3 níveis. O primeiro está a apenas alguns metros da rua e é composto por covas pequenas e naturais, onde imagina-se os mortos eram primeiramente levados para que se iniciasse o processo de decomposição.  

No segundo nível encontramos importantes compartimentos. Na Oracle Room a acústica nos prega uma peça, pois uma voz de tenor, ao falar perto de uma das aberturas produz um eco que reverbera com perfeição. É na Oracle Room também que estão os desenhos circulares feitos em cor ocre no teto e paredes e que estão melhores preservados. Na Holy of Holies é uma das câmaras mais interessantes, onde esculpiram com perfeição em blocos maciços de pedra para que se parecessem com o tipo de colunas encontradas nos Templos da superfície. As técnicas de construção eram tão aprimoradas que algumas das colunas são curvadas para criar o efeito de “olho-de-peixe” e dar uma sensação de amplitude para o ambiente. É no segundo nível também que está a Snake Pit, uma abertura circular de 2 metros de altura que supõe-se que eram colocadas cobras para punir os invasores e resguardas as almas dos que ali repousavam. Na Main Chamber há diversas aberturas e foi onde encontraram a “Sleeping Lady”, uma estátua de uma mulher dormindo.

   O que ela significa? Uma homenagem à Deusa ou um adereço enterrado com seus mortos? 

  

No terceiro nível é onde os corpos se acumulavam. Nessas covas coletivas, calcula-se que mais de 7.000 pessoas foram enterradas.

Enfim, estar nessas ruínas, tocar nessas pedras polidas que mãos humanas desenharam há milênios, entrar em um lugar de culto tão importante que os fizeram desenvolver tecnologias para transportar pedras de 20 toneladas ou escavar 3 pavimentos abaixo do solo é impressionante.

Sei que não é o tipo de turismo que todos gostam de fazer, mas para quem tiver oportunidade, não deixem de conhecer esses lugares tão marcantes para tentar apreender a história da evolução material e social dos homens.

Dos lugares: St. Julians and Sliema

St. Julians e Sliema estão bem pertos de onde moro. Nada que 30 minutos andando não resolva.

St. Julians fica logo depois de Paceville e é cheio de vida, de lojas de souveniers e restaurantes. 

Perfeito para ir ao fim da tarde e sentar em um dos muitos restaurantes na orla para um happy hour.  

É aqui também que está o famoso “Love Monument”. 

   Por que LOVE está escrito ao contrário? Existe algum significado ou é somente um cruel senso estético? 

Se continuar andando, passando por Balluta Bay chega-se a Sliema. 

Um ar um pouco mais cosmopolita, mais restaurantes e lojas de marcas. 

   
   
Mas em Sliema encontra-se as deliciosas piscinas naturais feitas por pura erosão na encosta rochosa maltesa.

Aqui sinto com clareza que a selvageria de Malta impera. Não importa a moderna avenida da praia, os restaurantes caros, as lojas de marca.  

O mar, essa força imutável e implacável forma seus desenhos com capricho e desdenha do avanço humano.

   
 

Dos lugares: St. Peter’s Pool e Marsaxlokk

Logo que cheguei aqui me falaram de alguns lugares que eu deveria conhecer. Entre eles estavam St. Peter’s Pool e a feira de domingo em Marsaxlokk.

Apesar de serem pertos um do outro, fiz cada um em um dia. 

Marsaxlokk é uma pequena vila de pescadores ao sul de Malta, cuja principais atrações são os charmosos barquinhos coloridos chamados Luzzu e o mercado de peixe que ocorre todos os domingos.

  Os lindos Luzzu. Todos eles possuem os Olhos de Osiris, para espantar a má sorte no mar.

Cheguei no domingo por volta da hora do almoço e o mercado é uma grande feira à céu aberto. 

Assim como nas feiras livres brasileiras, vende-se de tudo um pouco. De frutas da estação e comidas típicas maltesas à roupas e bugigangas “made in China”.

É bem legal para ver um pouco da cultura maltesa e provar os deliciosos sabores da ilha.

 A tentação em forma de uma vitrine cheia de doces malteses. 

Da série curiosidades: foi em um barco ancorado em Marsaxlokk que George Bush (pai) e Mikhail Gorbachev (Perestroika, abertura soviética, etc) se encontraram para discutir o fim da Guerra Fria em 1989. 

Também vale a pena parar para almoçar em um dos muitos restaurantes da orla e experimentar um dos peixes locais. 

Se você for mais esperto que eu, o que não é nada difícil, pode ir no mesmo dia à St. Peter’s Pool. 

De Marsaxlokk, deve-se pegar uma trilha de uns 20 minutos para chegar a um dos lugares mais lindos da ilhota. 

St. Peter’s Pool é literalmente uma piscina encravada na encosta rochosa. O mais legal desse lugar é que em um dos lados um paredão de uns 6 metros é um convite para pular na até então gélida água azul do Mediterrâneo. 

  
Como o acesso não é dos mais fáceis, esqueça qualquer infra-estrutura. 

Comida e bebida somente a que cada um puder carregar. 

E, infelizmente tenho que admitir que um dos meus arrependimentos é não ter voltado lá no verão alto para aproveitar melhor uma das maravilhas de Malta.