Quando decidi sair do país a intenção sempre foi a de viver em diferentes lugares por tempo indeterminado, pelo tempo que eu quisesse e enquanto me fizesse bem.

Falo sobre viver de verdade, de saber qual mercado é mais barato, para onde vão as linhas de ônibus e não somente ficar uma semana e conhecer os pontos turísticos. 

Indo para Malta com planos de ficar ao menos 4 meses já era um começo. 

Ao chegar e começar as aulas percebi que aquele mundo de estudante era somente uma ilusão, uma fantasia adolescente. 

Então comecei a procurar emprego, o que também sempre esteve nos planos. 

Munida com a cara de pau com a qual nasci, a coragem adquirida à duras penas e o inglês meia-boca, pouco mais de um mês depois de chegar à Malta arrumei um freelancer como garçonete em um casamento. 

Apesar do nervosismo e da insegurança, tudo correu bem e começaram a me chamar com freqüência. Pouco depois, pela mesma agência, fui trabalhar em um restaurante onde fiquei até a hora de ir embora. 

E o que aprendi trabalhando como garçonete?

Aprendi que quando trabalhamos nesse tipo de serviço viramos fantasmas.

As pessoas que estão sendo servidas simplesmente não nos vêem. Tentamos passar com uma pilha de copos ou colocar um prato na mesa enquanto seguramos outros dois no outro braço e as pessoas nem por um segundo pensam em nos dar licença ou nos ajudar. 

Porque não existimos. 

Porque somos serviçais. 

E, tem horas que temos que agradecer por sermos invisíveis, pois a outra opção é ser tratado com desprezo, como se fossemos seres inferiores e sofrer todo tipo de humilhação.  

Eu tive sorte. 

Não passei por nada extremo, mas pequenas coisas aconteciam o tempo todo. 

E, o que ninguém sabe é que mesmo durante um dia ruim, quando um cliente nos da um sorriso sincero, conversa conosco olhando nos nossos olhos, nos ajuda de alguma forma ou simplesmente nos agradece com alegria, faz com que mude todo o cenário e nos relembre que existimos, que somos reais e que não somos inferiores a ninguém. 

Eu sempre tive uma boa relação com garçons, seguranças, porteiros, etc, mas só agora aprendi que ser gentil pode mudar o dia.

Eu aprendi a ser mais humilde. 

Aliás, maior e melhor que as coisas ruins, foram as boas descobertas. 

Aprendi que trabalho em equipe não é aquela baboseira que os chefes de repartições e os escritores de auto-ajuda adoram.  

Trabalho em equipe é cobrir o seu colega para ele poder ir ao banheiro, é alguém guardar um pouco de comida para você comer depois que a correria diminuir, é passar pela sua seção e descobrir que ela já foi limpa por um colega que estava mais livre, é tomar o melhor “pineapple malibu” do mundo enquando acha que o mundo vai acabar, é dividir a rara gorjeta no final do dia, é comentar dos clientes atrás do balcão e dar risada das muitas excentricidades.  

Eu acabei por descobrir o universo que existe por trás de um grande evento ou de um restaurante e a entender a correria na cozinha para que todos os pratos saiam perfeitos. 

No final das contas aprendi a respeitar ainda mais o trabalho desses “seres invisíveis”. 

E como sou uma pessoa de sorte, durante essa minha caminhada de descobertas e aprendizagem, conheci pessoas maravilhosas. 

Pessoas que me ensinaram, que me aconselharam, que me distraíram, que ouviram minhas explosões de raiva e impotência (mesmo que num inglês capenga), que me ajudaram e que me acolheram como naquele tipo de família que a gente escolhe. 

E por isso, por todo o carinho e compreensão, serei eternamente grata. 

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