Para você que colou na escola (ou, Para todos que, com razão, nunca ouviram falar sobre): 

  • O que é e onde fica Malta

Malta é um arquipélago formado por três principais ilhas: Malta, Gozo e Comino, somando uma área de 316 km2, no meio do Mar Mediterrâneo, 93 km ao Sul da Sicília (Itália) e 288 km ao Norte da Tunísia (África).  
A população é de menos de 420 mil pessoas. Para se ter uma idéia através de comparação simples, só a cidade de São Paulo tem 1.522 km2 e quase 12 milhões de habitantes.

  • História (ou, O que nos transforma em presente e futuro) 

Desde 5200 a.C. as ilhas estão habitadas e aqui há importantes registros arqueológicos do período megalítico (Templos de Mnjdra, Hagar Qim e Tarxien em Malta e Ggantija em Gozo).

Justamente por sua localização estratégica as ilhas foram sucessivamente ocupadas e dominadas pelos mais diversos povos. Por volta de 1000 a.C. foram ocupados pelos fenícios, depois pelos gregos, pelos romanos, árabes muçulmanos, espanhóis e, finalmente, pelos ingleses.

Então, imaginem o caldeirão cultural que é esse pequeno país…

“Mas, Shaula, como você foi para em Malta para estudar inglês em um lugar com tantas outras influências?”

Em 1798, Napoleão invadiu Malta, a Grã-Bretanha o expulsou em 1800 e como naquelas brincadeiras de quem fica com o quê, Malta foi anexada à Coroa Britânica em 1814. Por 150 anos Malta foi colônia britânica e o inglês é a segunda língua oficial de Malta, mesmo depois da independência. Por isso, tanta gente vem estudar inglês por aqui.

  • Geografia, fauna e flora 

Malta é cheia de lindas baías, com praias encravadas nas pedras e o maravilhoso Mar Mediterrâneo para nos saldar.

Quem imagina Malta como um paraíso de areias brancas e mar azul, cai do cavalo. 

Aqui não é o Caribe.

Aqui é mais antigo, mais profundo, mais violento.

O mar tem todas as tonalidades de verde e azul em piscinas naturais formadas por milênios de erosão em pedras esburacadas que muitas vezes nos dá a sensação de estar andando na Lua.

Para ir de uma cidade à outra nos aventuramos por subidas e descidas em curvas que nos faz preferir estar em uma montanha-russa.

Não tem muitas áreas verdes e as árvores que vemos nas ruas são cactos gigantes. O calor e a paisagem nos remete imediatamente à imagem de desertos e oásis.

Sobre animais, vi um coelho, alguns patos, 500 mil gatos de rua, cães somente na coleira, um tipo de lagartixa envergonhada e que foge apavorada quando nos aproximamos a cada dois passos, milhares de formigas e algumas comunidades de baratas.

Importante notar que o país inteiro tem uma coloração típica. Não falo do céu 100% do tempo azul e sem nuvens ou dos vários tons do mar. Falo da cor das ruas e cidades: o país inteiro possui uma cor bege médio uniforme.

Casas = bege médio. Prédios = bege médio. Restaurantes = bege médio. Comércios = bege médio. Monumentos = bege médio. Muros = bege médio.

  • Quem são os malteses: o que comem, onde vivem, como se reproduzem 

Mela…

Podemos dizer que os malteses são, no mínimo, excêntricos.

Para começo de conversa a língua maltesa é semítica.

“Mas, Shaula, que raios é uma língua semítica?”

Simplificando, é a base do árabe e do hebraico. Para ficar mais divertido, é a única das línguas semíticas que usa o alfabeto latino (também conhecido como “nosso alfabeto”).

Traduzindo, é uma língua árabe e que se escreve com o alfabeto “comum” às línguas latinas, com forte influência do italiano e em menor grau do espanhol e do inglês.  

Ou seja, eles falam árabe como se estivessem falando italiano. Eles gesticulam, falam alto, gesticulam, se xingam e não há possibilidade de se entender uma única palavra.

A não ser “mela”!!!

Mela é usado para tudo. Para concordar, para discordar, no começo, meio ou fim das frases, para perguntar, para responder. Mela é mais usado do que a vírgula e já vi pessoas falando um “mela” a cada duas palavras.

Fisicamente, achei que encontraria uma mistura de deuses gregos com canalhas italianos. Não. Os homens malteses se dividem em três grupos: árabes, com sua tez morena e nariz adunco, árabes + ingleses em que mantiveram o enorme nariz, com a pele mais branca e temos também os bons e velhos carcamanos italiano. As mulheres são como os homens, só que mulheres, o que as vezes é um pouco estranho.

Todos eles possuem carro, que faz com que o trânsito daqui seja uma desgraça e vivem na casa dos pais até casarem aos 30 anos, mais ou menos. O que é bizarro, pois como aqui não tem motel e entrando no tópico “Como se reproduzem” todos acabam parando com seus carros nas praias, que ao menos são paradisíacas, e marmanjos de 30 anos continuam adolescentes com medo da polícia passar e pegar qualquer coisa no ato.

A comida é bastante influenciada pela cozinha italiana. É massa para todos os lados. De tradicional, tem os pastizzi que tem o mesmo espírito da nossa coxinha: nada saudável, oleosa, calórica, barata e deliciosa. Eles também comem mexilhões de entrada e coelhos sem nenhuma dó.

Se tem uma coisa que não podemos falar é que maltês é mesquinho com comida. Os pratos são de generosos à gigantes e são bem saborosos.

Mas também, se tem uma coisa que não podemos falar é que maltês é o povo mais simpático e hospitaleiro do mundo. Muitas vezes eles são rudes e mal educados.

“Mas, Shaula, na internet falam que eles são super legais!” 

Meus amores, pequem um ônibus aqui, tente fazer compra em um supermercado, peça uma informação na rua, coloque uma carta no correios. Saiam do circuito central. São mais ou menos simpáticos os que vivem do turismo, que sabem quem precisam dar uma controlada no gênio, mas quando se vive realmente aqui, isso não se sustenta. 

O pior é que já entendi que eles não são grossos comigo por minha causa, por ser estrangeira ou coisa assim. Eles simplesmente são assim. O que para nós é grosseria, para eles é normal. São assim entre eles. São assim normalmente. É natural e cultural. E o que para mim é rude, para eles só estão falando e agindo como sempre. 

Anúncios

Realmente me apavora essa onda conservadora e reacionária que está tomando forma por aí.

Me apavora esse discurso vago e raso sobre o que é bom e o que é ruim, fazendo do mundo uma dicotomia irreal e inútil. Há mais camadas entre um extremo e outro, afinal, quem acredita em céu e inferno? 

Me apavora esse discurso de ódio simplista, que se mostra cada vez mais racista, xenófobo, classista e misógino. Me apavora ainda mais o fato de que esses insultos são feitos também por aqueles que sofrem pelo racismo, xenofobia, classismo e misoginia.  

Me apavora a falta de argumentos dos que gritam hoje e a recusa terminal de se discutir em termos claros e reais qualquer posição. (A imagem de cães ladrando para qualquer um que passe em frente ao portão me vem automaticamente à mente).

Me apavora a raiva seletiva. “Filho da puta que reduziu a velocidade nas Marginais. Tenho que correr pra casa depois do trabalho para tomar banho antes das 20h, pois depois a água da minha rua é cortada, mas tudo bem, se eu chegar antes está tudo certo.” 

Me apavora que dêem mais valor a correr em seus carros parcelados à prestação do que ter água para tomar banho.  

Me apavora que tenham mais medo de não poderem mais freqüentar restaurantes uma vez por semana do que vergonha de viver em um país que há 20 anos lutava (e perdia) contra a fome. 

Me apavora a ignorância tácita de tudo o que não for imediatamente relacionado ao próprio umbigo. Me admira a incapacidade geral de se sentir empatia. 

Me apavora saber que a memória é curta. Curtíssima. Não se lembram da colonização exploratória e assassina, da escravidão assassina, da Monarquia assassina, da República elitista e assassina, da Ditadura Civil-Militar assassina, da Polícia assassina, da mídia linchadora e assassina, da política desviada e assassina.  

E me apavora muito mais saber que não se faz a correlação de todo esse sangue derramado com um certo sistema econômico e político baseado na exploração de uma maioria por uma minoria detentora dos meios de produção.