Da série: Diálogos inusitados

Estava eu, de “uniforme” e fone de ouvido, tirando o lixo pela manhã.
Uma mulher muito bem vestida me chama.

– Hey girl!

– Hiya!

– You know… You’ve a amazing shape.

– Thanks (?)

– Really! An amazing shape. Bye!

Oi?!?!?!

Anúncios

Resoluções de Ano Novo

Então é Natal e o que você fez?

Opa… Já estou fora do prazo.

O Natal já veio, passou, todos ouviram ao menos uma vez a música da Simone, viram o especial do Roberto Carlos, contaram a piada do pavê, separaram as brigas em família.

Daí veio o Ano Novo.

Show da Virada, fogos em Copacabana, lentilha, cachos de uva, Cidra Cereser travestida de Champagne, pular 7 ondas e presentear a Rainha do Mar com rosas brancas.

E pela primeira vez eu não estava por perto para participar de tudo isso.

Acompanhei de longe e foi só. Assim como acompanhei as resoluções de Ano Novo. Todos possuem ao menos um tipo de tradição ou costume.

Há sempre a promessa de levar uma vida mais saudável, começar a academia, juntar dinheiro, passar mais tempo com a família, encontrar o amor.

Se prestarmos bem atenção vemos que são planos para mudar de vida no futuro, os planos são sempre no amanhã.

Eu, com certeza, não recuso a lentilha e pulo as ondas de Iemanjá, mas nunca fui de fazer essas listas.

Acho que sempre soube, um tanto quanto intuitivamente, que uma decisão tomada (ou não tomada) hoje pode alterar todo o amanhã e que nossas resoluções nunca são definitivas.

O “para sempre” é muito tempo.

Mas apesar de não fazer listas de planos, gosto desse ritual de recomeços. Acho importante a renovação das esperanças, a intenção de tempos melhores, de fazer as coisas certas, que quer que isso signifique.

E acho ainda mais importante o momento que tiramos para olharmos o caminho que percorremos ao longo do ano que passou.

Tentarmos ver, como se o tempo fosse de fato uma linha lógica e razoável, onde e como começamos e qual foi nossa evolução.

Uma das coisas que mais me entristecem é olhar para um período de tempo e ver que só estive paralisada em uma mesma rotina maçante.

Pensando nisso, colocando o ano em perspectiva, quem eu era em 01.01.2015 e quem chegou em 01.01.2016?

No começo de 2015 eu estava planejando minha viagem. Tentando descobrir onde, quando e porquê. Tentando fazer as coisas práticas. Ir ao médico, alugar o apartamento, fazer a mala, etc.

Odeio fazer burocracia. Odeio pensar em burocracia. Porém essas coisas precisam ser feitas.

Esse período durou todo o primeiro trimestre e, enquanto isso, existia o medo, a ansiedade, o frio na barriga.

Finalmente no final de março eu embarquei na viagem da minha vida.

E que começo!

Quem em sã consciência resolve andar 800 km num país estranho?

Como já disse antes, o Camino nunca foi um sonho, mas quer melhor “restart” que isso?

E fazer o Camino foi uma das decisões mais acertados que já tomei. De uma forma ou de outra pude descobrir quais são os meus limites, tanto os físicos quanto os mentais.

No Camino entendi como ler o meu corpo. Revistei sentimentos, fatos, emoções. Coloquei alguns pontos finais.

E me senti livre de uma maneira que nunca imaginei possível.

Porque a liberdade está em ser capaz de superar nossas dores e seguir em frente. Está em aceitar o que não é possível mudar. É saber, sem culpa, que por mais tentador que seja ficar, as vezes é hora de partir.

E isso não é ruim, pois saber a hora de partir também é libertador.

No Camino eu ganhei uma “Camino Family”. Ganhei pessoas que quero para o resto da minha vida. Que partilharam todas essas descobertas comigo e que por isso sempre serão únicas na minha história.

Quarenta dias depois, desembarquei em Malta.

O que falar da Ilha da Fantasia?

É um lugar maravilhoso, intenso e que se você não tiver a cabeça no lugar pode colocar tudo a perder.

Onde, se não sair do mundinho conhecido, vai encontrar somente estudantes ensandecidos querendo curtir a vida adoidado.

Mas foi nesse lugar que aprendi algumas das lições mais importantes.

Aprendi a ser tolerante. Que se precisar, sou capaz de dividir meu espaço.

Aprendi que servir é uma arte e que devemos ser muito gratos a quem faz disso uma profissão. E o que é realmente trabalhar em equipe.

Aprendi que a educação não depende de dinheiro ou classe social.

E que para fazer parte de uma família o que menos importa são os laços de sangue. Que também não importa qual língua falamos ou o território em que nascemos.

Fiz irmãos dos mais diversos lugares do globo. Pessoas com quem conversei, gargalhei, bebi, chorei, briguei, consolei e fui consolada.

Pessoas que foram e sempre serão meus companheiros.

Fiquei por 6 meses completos.

Completos de vida. Intenso. Duros.

E felizes.

Quando parti, fui com a certeza de ter completado um ciclo.

Fiquei exatamente o tempo que deveria ficar. Nem mais, nem menos.

E, novamente, isso foi libertador.

Ir, podendo ficar.

Ir para o novo, para o desconhecido, para o inseguro. Somente por ser o certo a fazer.

E cá estou eu escrevendo essas palavras sentada em um Hostel em Londres.

Faz 40 dias que estou aqui e ainda não acredito.

Nesse período já pude perceber muitas diferenças e dar ainda mais valor em algumas coisas que tinha em Malta.

Principalmente no que concerne ao trabalho e às suas relações.

Por mais estressante que fosse o dia eu fazia parte de verdade daquilo tudo.

Lá eu fazia parte de uma equipe, aqui as relações são mais frias. Aqui eu só executo um trabalho.

Lá nos ajudávamos no dia a dia, aqui as pessoas só querem passar a bola.

Não irei generalizar. Aqui estou convivendo com pessoas incríveis que salvam o meu dia com uma simples conversa descompromissada.

Mas aqui a frieza parte de cima e somos somente parte da engrenagem que compõe a máquina.

E, apesar disso, estou completa por estar aqui. Estou exatamente onde gostaria de estar.

Pode parecer um pouco bipolar, mas qual o problema quando a própria vida é bipolar na maior parte do tempo?

Voltando ao começo, eu andei mais de 800 km, eu posso fazer qualquer coisa que eu quiser. Ou que precisar fazer.

Andar por essas ruas, sentar à tarde nesses parques, dar comida aos esquilos, ser cumprimentada por simpáticos estranhos nas ruas, entender como as linhas de metro se entrelaçam, se irritar com o tráfego de turistas na Oxford Street, perceber a diferença de sotaque entre os britânicos e nós, os estrangeiros, se surpreender com um céu azul na cinzenta Londres.

Estou vivendo aqui.

E, por isso, tudo vale a pena.

Terminei meu ano vendo as luzes de Natal na Trafalgar Square. Passei a primeira noite do ano em um autêntico pub londrino.

Então, colocando o ano mais intenso e louco da minha vida em uma régua posso olhar para trás e ter a certeza de estar no lugar, no tempo e com as pessoas certas.

Vou carregando comigo um pedacinho de todos os lugares que passei e de todas as pessoas que conheci.

Tudo faz parte de quem eu sou hoje. Da Shaula que chegou à 2016.

E olhando essa minha trajetória, o que eu poderia pedir nesse novo começo?

Eu só quero mais disso tudo.

Quero continuar vivendo cada dia como se fosse o primeiro e o último da minha vida.

Não costumo ter planos.

Também não os tenho para 2016.

Só sei que essa fome de viver, de ir, de conhecer não foi aplacada com o que já vivi.

Somente me fez querer mais e mais e mais.

Mais lugares, mais pessoas, mais caminhos, mais tempo.

Mais vida.

Mesmo com todas as dificuldades (não se iludam, não é um mar de rosas, não é fácil, nem sempre é indolor, muitas vezes é solitário e pesado) estou vivendo.

Vivendo o sonho.

Porque não há fronteiras no mundo.

Porque ir é o meu destino.

E, ainda assim…

“Tu podes ir e ainda que se mova o trem, tu não te moves de ti.”