Dos lugares: Moscou (o início)

 Sou sempre medrosa para passar na imigração, mas depois das minhas entradas e saídas pelos Balkans, acabei ficando mais tranquila. Vim para Moscou com o passaporte e só. 

Na imigração tava tudo meio bagunçado e, como na Lei de Murphy, minha fila não andava. Quando estava esperando reparei que tinha um rapaz com passaporte brasileiro nas mãos no guichê ao lado. Ele começou a ser atendido pouco antes de mim e ouvi ele respondendo que estava lá a turismo, que depois ia para a Finlândia, que tinha o comprovante do Hostel, etc.  

Eu gelei. Não tinha nada disso. Chegou minha vez, a agente pegou meu passaporte, mal olhou na minha cara, não perguntou absolutamente nada, carimbou meu passaporte e me devolveu. 

Era isso, eu estava oficialmente na Rússia.  

Quando estava conversando com o Hostel, o gerente disse-me que iria me encontrar no aeroporto, então sai na área de desembarque, olhei, olhei e não havia ninguém. Esperei uns 20 minutos e resolvi ir sozinha pro Hostel. Saquei dinheiro e fui para o ponto de ônibus, quando fui entrar o motorista não aceitou porque eu só tinha uma nota alta. 

Um cara atrás de mim me perguntou, em russo, o que tinha acontecido, eu tentei explicar em inglês, ele entrou no ônibus e pagou minha passagem. DO NADA!!! Durante todo o caminho fomos conversando. Ele em russo e eu em inglês. Ele disse que me ajudaria no metrô também, pois iria fazer o mesmo caminho. Descemos no metro, ele pagou novamente minha passagem e foi todo o caminho até o Hostel comigo. 

Cheguei, me mostraram o lugar e fizeram com que me sentisse bem vinda. Pouco depois chegou o gerente do Hostel, pediu desculpa pelo mal entendido e me deu um buque de flores.  

E essa foi minha recepção pela “gelada” Rússia. 

Ou seja, em apenas algumas horas já fiquei encantada… 

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Dos lugares: Montenegro

Em maio chegou a hora de me despedir de Londres e seguir com a vida. Meus planos não possuem nada de pre-definidos e tenho ido para onde sopra o vento. Montenegro me parecia um lugar tão bom quanto outro qualquer, então lá fui eu. 

 Primeira parada foi na capital Podgorica. A cidade é pequena e na verdade não há muito o que fazer e não é tão bonita. Há um parque que é tranquilo, bom para caminhar, passar um tempo em silêncio e isso é tudo. 

De Podgorica fui direto para a cidade que eu imaginava que seria minha casa pelos próximos 3 meses. A cidade em si é pequena e o que mais chama a atenção é um imenso e moderno Porto recém construído, cheio de yatchs e lojas caríssimas, mas Tivat fica no meio do litoral de Montenegro em um lugar estratégico para se conhecer as outras cidades da região. 

A mais interessante é Kotor, que é muito bonita, encravada entre montanhas e que possui um centro histórico tombado pela UNESCO. Da Old Town é possível subir ao forte datado do século IX, claro se você tiver fôlego pra isso, pois são mais de 1.500 degraus até o topo, mas que vale a pena. A vista do alto do forte tira mais o fôlego que a subida. 


Budva também fica próximo à Tivat e é uma cidade mais turística, cheia de restaurantes e baladas. 

O Hostel que fiquei era ótimo. Uma área comum incrível, com toda a sorte de instrumentos musicais, um bar, uma rede. Do rooftop tem-se uma vista linda da baia de Tivat e é um bom lugar pra relaxar tomando sol. Além de tudo isso, eles têm um cão. Uma Golden de, na época, 3 meses extremamente carinhosa chamada Budza. 




Achei que tinha tirado a sorte grande. Um bom lugar, acomodação e as 3 refeições free, um staff bacana. 

Mas como quando a esmola é muita o santo desconfia, não poderia ser assim tão perfeito. Logo no primeiro dia me fizeram um estranho pedido. Os donos do Hostel tem 4 filhos: um menino de 13 anos, duas garotas de 4 e 3 anos e um bebê de um aninho. O pedido era que eu cuidasse das crianças ao invés de trabalhar no Hostel. Quando eu cheguei éramos em 5 no staff, eu, um brasileiro, um espanhol, um mexicano e um irlandês. Eu era a única garota e fui a única para quem isso foi proposto. Sexismo? Imagina!!! 

Enfim, eu não estava numa posição que realmente me permitisse recusar, então topei. 

O mais velho quase não ficava lá e o bebê era até que tranquilo, mas as duas meninas eram a encarnação do demônio. A mais velha pelo menos falava um pouco de inglês, apesar de não me obedecer de maneira nenhuma, já a menor não falava uma palavra em inglês e tudo o que sabia fazer era gritar como se eu a estivesse matando quando eu falava alguma coisa ou me aproximava. 

Passei duas semanas assim, mas isso não era o que eu queria. Se quisesse trabalhar de babysitter, eu teria procurado um trabalho como esse, não para trabalhar num Hostel. Quem me conhece sabe que eu não morro de amores por crianças e, no geral, elas também não gostam muito de mim, por isso comecei a procurar outros lugares para ir antes que acabasse os 3 meses. 

Encontrei um lugar para ficar na Croácia e avisei que em duas semanas eu iria embora. Depois disso, as coisas melhoraram consideravelmente. 

Eu passei a trabalhar somente no Hostel e nós do staff (eu, o brasileiro e o irlandês) nos entendíamos muito bem. O trabalho fluía e passávamos um ótimo tempo juntos. Ensinamos o irlandês a jogar truco, ouvíamos boa música, dormíamos no rooftop quando o tempo estava bom. O Hostel recebia alguns grupos grandes de 40/45 pessoas e quando era dia de grupo (que por ironia do destino era sempre majoritariamente de brasileiros) fazíamos o jantar para todos, assim aprendi a fazer goulash, servíamos o jantar e depois bebíamos até de manhã. 

No final, apesar dos pesares, tirei sim a sorte grande e acabei passando um ótimo mês em Montenegro. 

Da série: Momentos que fazem valer

Fui para Zagreb sem muitos planos do que fazer. Acordei no Hostel e conversa vai, conversa vem, decidi acompanhar um brasileiro ao cemitério da cidade e depois caminharmos aleatoriamente pelo centro de Zagreb. 

Em dado momento entramos em uma loja bonitinha, pois ele estava procurando algum souvenir. Atendendo estava uma das pessoas mais simpáticas que encontrei em todo o meu tempo nos Balcãs. 

Ela nos mostrou os imãs de geladeira, explicou o porque eram mais caros do que os encontrados normalmente em lojas de souvenirs, nos ofereceu chocolate, nos apresentou a alguns tipos de home-made rakija (todas deliciosas), nos explicou como a pêra crescia dentro da garrafa e ainda compartilhou um pouco de sua história. 

Ela morava com a família em uma cidade pequena da Croácia durante a Guerra de Independência. Quando a Guerra acabou, mudaram-se para um cômodo em Zagreb cuja janela era no nível do calçamento. Na primeira noite no novo lugar, por volta das 3h da manhã, ela foi acordado pelo barulho de tanques de guerra passando em fremente sua janela. Esqueceram de avisar que iriam fazer o deslocamento dos tanques de madrugada.  

Seu pai morreu pouco depois, mas mesmo com todo o horror vivido durante a guerra, essa é a memória que mais a marcou desse longo período. 

Acordar com tanques na sua porta quando já se imaginava em segurança.  

Dos lugares: British Museum

Eu, particularmente, gosto de museus. Gosto de andar por corredores cheios de histórias. Sinto como se cada uma das obras possuíssem uma energia acumulada tanto por seu artista, como pelas milhares de pessoas que de alguma maneira foram tocadas por elas. 

Por isso o British Museum era um sonho de consumo. 


Só imaginar a quantidade de conhecimento humano acumulado nas dezenas de salas desse singular museu já me arrepiava. 

E quanto entrei pela primeira vez foi de tirar o fôlego. Foi mais do que eu esperava. Correr os olhos pelas escrituras nas estantes protegidas, nas centenas de esculturas e peças arquitetônicas de tempos imemoriais é impressionante. 

Porém, ao mesmo tempo em que estava maravilhada, comecei a me perguntar se era certo tudo aquilo estar ali. Não são obras de arte, não são pinturas. São pedaços da história humana e praticamente tudo que está lá é fruto da expropriação desses bens de seus lugares de origem. 

É correto, por exemplo, que a Pedra de Roseta, algo tão essencial para se entender a milenar cultura egípcia esteja em um museu em Londres e não exposta em um museu no Egito? 

É óbvio que é interessante que tantos tesouros estejam reunidos em um único lugar, ainda mais sendo um lugar como Londres, que é uma capital do mundo, mas não seria uma questão de respeito histórico que cada lugar pudesse manter esses fragmentos tão importantes de suas formações históricas? 


E esse sentimento dúbio me moveu durante toda a visita. 

Por um lado, eu era extremamente grata por ter a oportunidade de ver tanto da humanidade em um só lugar e, por outro, eu me sentia mal por saber que a possibilidade de encarar sua própria evolução foi “roubada” de tantos povos ao longo da história. 

E encarar o fato de que quem detém o poder, ou seja, as grandes potências não expropriam somente a força humana alheia, mas também levam consigo a história e parte daquilo que constitui e identifica como um povo coeso todas as demais sociedades. 

Dos lugares: Stonehenge e Salisbury

Entre os meus lugares de sonho de conhecer sempre esteve Stonehenge, que nada mais é que um círculo de pedras no sudoeste da Inglaterra construído há mais de 3.000 anos A. C.. Ninguém sabe exatamente quem o construiu, como e qual sua exata finalidade.

Há muitas lendas sobre isso e por muito tempo acreditou-se que fora construído pelos celtas e seus druidas, porém Stonehenge data de mais de 1.000 anos antes dos druidas aparecerem por aquelas terras, mesmo que eles tenham posteriormente feito uso deste local dito sagrado. 

Há ainda os que ao olharem para essas pedras se perguntam “Eram os deuses astronautas?” e colocam Stonehenge ao lado de construções como as Pirâmides do Egito e os Moais Rapa-Nui da Ilha de Páscoa. 

Independe dessas teorias, sabe-se que o círculo de pedras está posicionado de forma que o nascer do sol no Solstício de Verão, o dia mais longo do ano, incide com perfeição na abertura de um de seus arcos. Isso nos faz deduzir que Stonehenge era utilizado para fins religiosos e para a marcação de aspectos astrológicos. 

Na verdade, pouco importa os motivos e suposições. Ao chegar e encarar esse imenso círculo de pedras tem-se a exata noção de seu poder ancestral mesmo após tantos anos. Somente por sentar e observá-las, sentindo o vento e tentando imaginar as milhares de pessoas que as ergueram e comungaram em um lugar tão mágico é emocionante. 


Perto de Stonehenge é possível visitar o Old Sarum, que são as ruínas do palácio e da igreja originais que deram surgimento à cidade de Salisbury. 


O jeito mais fácil de chegar em Stonehenge é pela cidade de Salisbury. Há ônibus de Londres, a viagem dura em média 3h30 e custa em torno de £ 12. 

Não posso falar muito sobre hospedagem, já que fiquei na cidade através de Couchsurfing (aliás, minha primeira experiência do tipo, na casa de um casal extremamente acolhedor e simpático). 

Salisbury é uma cidade pequena é provinciana, com um lindo rio a corta-lá e vale muito a pena despender um dia para conhecê-la. 


Tem uma linda e imensa Catedral em estilo gótico datada do ano de 1220 que possui alguns marcos importantes. É dela a mais alta torre da Inglaterra e o mais antigo relógio em funcionamento do mundo. 


É também na Catedral de Salisbury que está a cópia mais bem preservada da Magna Carta, documento assinado em 1215 que limitava os poderes do Rei e é considerada o primeiro marco nas definições de direitos e justiça, lança as primeiras bases para o constitucionalismo e viria a influenciar a política no mundo inteiro.  


Quando estava na cidade pude ver uma exposição temporária da artista plástica Sophie Ryder é isso teve grande impacto para mim. Sua obra são esculturas gigantescas de seres híbridos entre humanos e animais com forte influência pagã. O mais interessante é que as obras estavam circundando todo o parque da Catedral e alguma de suas obras estavam inclusive no interior da Catedral. 


Mesmo em pouco tempo na cidade essa é uma característica de fácil observação: o sagrado e o profano dividem o mesmo espaço e essa ambivalência parece ter-se encravado até nas pedras do calçamento. 

Bus Londres-Salisbury – £ 12 

Bus + Old Sarum + Stonehenge – £ 28