Há um um ano e cinco meses eu saí do Brasil e nesse meio tempo muita coisa aconteceu, politicamente falando.

Quando saí tínhamos uma presidenta, que apesar de democraticamente eleita, enfrentava um “terceiro turno” não previsto na constituição. A oposição derrotada, como meninos mimados que são, acostumados a terem tudo o que querem, batiam o pé e resolveram travar o país. A mídia, antiga amante e companheira da direita, prontamente se dispôs a ajudar. Esse era o quadro que se pintava em abril/2015.  

Neste quase um ano e meio venho acompanhando o desenrolar dessa história. Vi em todos os lugares o agravamento da crise, as denúncias de corrupção, as condutas coercitivas, as panelas batendo, os parentes sendo bloqueados no Facebook. Por estar longe, não tinha muito o que fazer, a não ser observar o que acontecia. 

E, no princípio do fim, acompanhei as longas horas de humilhação pública naquele circo de horrores que foi a aceitação do processo de impeachment na Câmara dos Deputados. Entre a pura exaltação da família, da propriedade privada e do Estado, enquanto ouvia homenagens à torturadores assassinos eu comecei a entrar em desespero. 

Decidi que iria voltar. No meio da realização do sonho da minha vida, viajando pelo mundo e vivendo da forma que eu escolhi, estava disposta a voltar pois não podia aceitar ver o que estava acontecendo e não fazer nada. 

Entre meu acompanhamento obsessivo pelo o que estava acontecendo, a leitura de jornais mundo afora e conversas entre amigos, optei esperar uns dias, deixar esfriar por umas duas semanas para ver como a esquerda iria se organizar. 

E depois de alguns dias percebi que estava me iludindo e que nada iria acontecer. 

O meu desejo era que a esquerda de fato se unisse em um projeto comum, que aproveitasse o choque que foi ver a Câmara dos Deputados em todo o seu esplendor para se aproximar do trabalhador. Que usasse um momento tão icônico em prol de algumas mudanças importantes: a reforma política e a reforma tributária. Vejam, o meu desejo não era uma revolução*, mas que aproveitasse a indignação coletiva para voltar a conversar com uma classe operária que pela primeira vez observava a atuação de seus representantes eleitos e que isso pusesse a máquina em movimento. Meu desejo era ver um chamamento para greve geral, fechamento de rodovias e ocupação pública exigindo a alteração desse sistema político que nos faz de refém.  

Veja bem, meu desejo não era a volta de Dilma e do PT como se nada estivesse acontecendo, até porque o PT está colhendo o que plantou quando abandonou a tênue ligação que tinha com os movimentos sociais e se aliou definitivamente ao grande capital e ao que há de pior na velha política brasileira, o que significa que se Dilma voltasse por pressão popular ela não teria nenhuma governabilidade (guardem para sempre na memória as horas lastimáveis assistindo à TV Câmara durante a votação) e se voltasse por decisão de seus pares isso significaria um “acordo de cavalheiros” para que tudo continue exatamente como está.  

Meu desejo era que aproveitássemos a crise democrática que estamos vivendo para fazer um novo tipo de aliança com a classe trabalhadora, que nos uníssemos aos jovens estudantes que mostraram sua força na ocupação das escolas ano passado, que saíssemos da hibernação que temos vivido nos últimos tempos. 

Eu voltaria para participar disso.  

As semanas foram passando e o que vi foi o usual silêncio da esquerda e isso me desarmou. Claro, houveram algumas poucas passeatas, palavra de ordem no facebook, compartilhou-se a indignação online, mas ninguém levantou a bunda do sofá para fazer nada.  

E com o passar do tempo comecei a me sentir envergonhada. Nós, que nos dizemos de esquerda estamos tão afastados da realidade que nem em um momento crucial como este fomos capazes de dialogar com a classe operária e atuar de forma concreta.  

Simplesmente deixamos a hora passar. Sentamos e esperamos. Sabemos que o que vem é pior do que o que temos, que o golpe à um regime democrático jovem como o nosso abre precedentes perigosos e que a tendência é sempre piorar e ainda assim não nos mexemos. 

Sinto como se estivéssemos esperando pelo pior, esperando que nos tirem o pouco que temos para então podermos falar “tá vendo, eu avisei, agora chega mais, vamos conversar”, que ficamos sempre esperando que nos ataquem e nos depenem para então tomar alguma atitude. 

Eu estou longe e talvez não tenha nenhum direito de opinar, mas me sinto culpada por não estar aí para poder ajudar, ao mesmo tempo que me dói ver a inércia que domina quem está aí, pode fazer alguma coisa e ainda assim não faz nada. 

A votação no Senado ainda não acabou, mas somente por um milagre o golpe não se perpetuará. 

O que resta é perguntar: com o golpe consumado, como vamos reagir? 

Gritar palavras de ordem e andar bonitinho em fila “escoltados” pela polícia em uma manifestação dita pacífica uma porção de vezes, depois voltar para a vida normal e reclamar no facebook o leilão de nosso país ou iremos provar que nós, os trabalhadores, não aceitaremos pacificamente esse golpe e que está em nossas mãos parar o país?

* (Mentira, é claro que é exatamente esse o desejo, mas não sou tão inocente de imaginar que a revolução esteja sequer remotamente viável no momento. Vemos nossos direitos serem cortados e não conseguimos sequer convocar uma greve geral, quanto mais almejar uma revolução.) 

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Da série: Momentos que fazem valer

Depois de ficar 1 hora na fila para entrar no Mausoleu de Lenin, chega o momento de abrir a mochila e passar pelo detector de metais.
Abro a mochila, a coloco na mesa, o soldado me cumprimenta em inglês e me pergunta de onde sou.

Digo que sou do Brasil e segue o seguinte diálogo:
– Brasileira?

– Sim.

– Ronaldo! Futebol! Olimpíadas agora?!?! 

(Nessa ordem e com essa entonação)

– (risos) Sim… Ronaldo!!!

– Que legal!!! Bem vinda!!!