Volta

Foram 20 meses.

Foram 592 dias. 

Foram 15 países.
 

Foram 2 continentes. 

Foram 12 línguas.

Foram 12 formas de dizer bom dia, me desculpe, com licença e muito obrigada.

Foram memoráveis dias de sol.

Foram incontáveis dias de chuva.

Foram noites de lua cheia.

E uma enorme lista com os mais lindos pores do sol da minha vida.

Foram, em menor número, belos amanheceres.

Foram horas ininterruptas de caminhadas.

Foram quilos carregados na mochila.

Foram itens de bagagem deixados pelo caminho.

Foram eternidades de dor.

Foram banheiros sujos e camas desfeitas.

Foram danças, sozinha e/ou acompanhada.

Foram encontros com ratos do tamanho de filhotes de gatos.

Foram comidas exóticas.

Foram deliciosas surpresas ao paladar.

Foram tempos sem dinheiro.

Foram gastos bem feitos.

Foram incomensuráveis conversas aleatórias sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Foram incontáveis gargalhadas, algumas sóbrias, muitas ébrias.

Foram amigos de longa data em poucos segundos.

Foram culturas distintas.

Foram pessoas amigáveis.

Foram lugares marcantes.

Foram momentos únicos.

Foram 20 meses.

Foram 592 dias.

Foram a vida toda.

   
                                                                              ***************************************

Tendo voltado há algum tempo tenho pensado muito sobre o porquê voltei. Porém tenho pensado muito mais sobre como voltei.

Voltar é muito mais complexo que ir. Na ida temos a adrenalina, a excitação, o novo, o desconhecido. A volta é um pouco insegura, é um pouco de medo do que reencontraremos, medo de nos decepcionar e decepcionar aos outros.

Todos imaginam o “glamour” da viagem, querem saber as grandes aventuras e os acontecimentos marcantes, mas o caminho tem pouca glória. Na verdade o que tem é muito mais auto-conhecimento, experiências inusitadas, epifanias delicadas. Voltamos calejados pela experiência e por isso mesmo mais completos.

Me vendo nesses 20 meses viajando sinto que me tornei um ser maleável, como a água que assume uma nova forma a cada diferente recipiente. Em cada lugar pelo qual passei eu adquiri novos hábitos, absorvi várias culturas, peguei um pouquinho de cada pessoa.

E penso que hoje eu tenho mundos dentro de mim.

É como se eu expandisse até me tornar do tamanho do universo.

Voltar é como tentar contrair.

É como tentar espremer o universo inteiro no espaço de um corpo.
Em outra analogia, é como se todos nós fossemos peças de um quebra-cabeça. Quando parti deixei um espaço vazio enquanto todos continuavam em seus lugares. Era perceptível o buraco onde antes eu costumava estar, mas o quadro geral se mantinha mesmo sem mim, o desenho continuou visível ainda que com uma peça faltando.

Agora, voltei abarcando o mundo dentro de mim.

Como encaixar se mudei de forma? Me pergunto isso, pois sei que é impossível ter a mesma forma de antes e caber exatamente no mesmo lugar.

Nós tentamos caber. Tanto eu quanto os que me cercam.

Mas, não mais que de repente, tenho o mundo dentro de mim.

Sendo ambígua e contraditória:

Eu sei que fiz a coisa certa em voltar.

Eu sei que um dia eu irei novamente.

Eu sei que tenho dentro de mim mundos em número menor do que eu gostaria de ter.

Eu sei que tenho espaço para todos os possíveis e imagináveis mundos.

E, também sei que o que vivi e tenho vivido foi só parte do todo.

Tem mais, muito mais…

     

                                                                                                       ***
São quase 4 meses.

São 109 dias.

É o acolhimento da família.

É a festa dos amigos.

É a rotina.

É o dia a dia.

É o lar. 

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