Dos lugares: Moscou

Escrever sobre a Rússia não é uma tarefa fácil. Tanto pelo o que vivi nesse país como pelo o que a própria Rússia representa. 

Primeiro, por ser a gigantesca terra de Lenin, Trotsky e tantos outros. Terra que teve lugar uma das mais importantes revoluções da Era Moderna, pois mesmo aqueles que torcem o nariz para a União Soviética têm a obrigação de reconhecer a grandiosidade do que foi a Revolução Russa. 

E, afinal, o que foi a Revolução Russa? 

Para explicar, mesmo em pouquíssimas palavras e de maneira simplista, precisamos voltar um pouco antes da Revolução de Outubro de 1917.  

No final do século XIX, enquanto a Europa vivia a pleno vapor a Revolução Industrial e a consolidação das classes sociais antagonistas oriundas do desenvolvimento do sistema capitalista, a Rússia vivia sob o julgo de uma monarquia absolutista, com relações sociais equivalentes ao sistema feudal. Sendo que maior parte das terras produtivas estavam nas mãos da nobreza e do clero, a população vivia em regime de servidão e na extrema pobreza. No começo do século XX, incentivou-se a entrada de capital estrangeiro, o que ajudou em um processo de industrialização (ainda que tardio), gerando e fortalecendo um grande contingente de operariados urbanos e o contato com as teorias sociais que floresciam na Europa. 

Com o envolvimento do país na I Guerra Mundial, a situação da população russa piorou de forma drástica, a crise de abastecimento e pesadas baixas no exército russo suscitaram greves e revoltas generalizadas. Em fevereiro/1917, finalmente o tsar foi deposto e um governo de cunho “liberal” ocupou o governo. Oito meses depois, os bolcheviques sob a liderança de Lenin desencadeiam a Revolução de Outubro e instauram um governo socialista. Claro que não seria fácil a constituição do governo e o país mergulhou em uma guerra civil que durou até 1921, com a vitória do Exército Vermelho sob a batuta de Trotsky.   

Após o fim da guerra civil, o país estava devastado. A produção industrial praticamente inoperante e o campo sobrecarregado pelos esforços de guerra. Lenin aplica um plano de recuperação econômica, em que mantendo o controle das indústrias de base e do sistema bancário, abre o país para a economia de mercado em um “capitalismo de estado”. 

Lenin morre em janeiro de 1924 e uma guerra interna pelo poder começa. Os principais “candidatos” eram Trotsky, que via a necessidade de uma revolução mundial para que se alcançasse o comunismo, enquanto Stalin, burocrata por excelência, defendia o fortalecimento da economia e do governo interno russo.  

Bom, todos sabemos quem venceu. Stalin assumiu o poder, exilou Trotsky (depois mandou assassina-lo) e atuou ferozmente contra seus opositores, transformando a URSS em algo muito distante dos sonhos revolucionários.  

Independente disso, a transformação social que ocorreu na Rússia nos primeiros anos da Revolução não pode ser ignorado: coletivização da terra, industrialização e modernização de técnicas agrícolas, desenvolvimento de ferrovias, educação e saúde universais, igualdade de direitos entre gêneros, instituição de políticas públicas voltadas às mulheres, como creches e cozinhas coletivas e a legalização do aborto (mesmo que tenha sido depois revogado por Stalin, é importante salutar que a Rússia foi o primeiro país no mundo a reconhecer o aborto como questão de saúde pública e a fornecer meios seguros e legais para as mulheres). 

Em segundo lugar, sempre tive uma queda pelos escritores russos: os contos de Tchekhov e Gogol, o cosmopolita Turguêniev e os mais que geniais Dostóievski e Tolstoi. Ao lê-los, o caráter e personalidade russas me intrigavam e, pode ser loucura da minha cabeça, mas sempre vi uma certa similaridade conosco, brasileiros. Claro que guardadas as devidas diferenças histórias e sociais, consigo ver algo em comum entre os vícios e paixões dos personagens russos e os clássicos personagens brasileiros (que o diga o excelentíssimo Dom Casmurro, os olhos de cigana oblíqua e dissimulada de Capitu ou as decisões de Anna Karenina). 

Por isso, conhecer esse país de tantas contradições sempre foi um objetivo, meio que relegado a um segundo plano, mas ainda assim um objetivo.  

Quando surgiu a ideia de ir para a Rússia foi como um estopim e decidi ir independente de qualquer coisa. Em pouco tempo entrei em contato com um Hostel em Moscou e após a aprovação fui moldando meus planos indo para o leste para facilitar as coisas. 

E, enfim, aterrissei em Moscou. 

Logo no primeiro dia fui com uma das meninas que trabalhavam no Hostel na Red Square. E o mais engraçado era a cara dela vendo a minha reação. Eu olhava para o Kremlin, a Basílica de São Basílio e o Mausoléu de Lenin sem acreditar que estava ali. Acho que foi a mesma reação que tive ao ver o Big Ben pela primeira vez. São aqueles lugares chaves da existência, que povoam nossos sonhos e parecem irreais quando nos deparamos de verdade. Moscou é uma cidade enorme, caótica como todas as grandes metrópoles, cheia de vida e atividades e me descobri dias sem fim caminhando, observando a largura das ruas e a grandiosidade de seus prédios.  



Quando dizia que ia para a Rússia as pessoas me alertavam que os russos eram frios, antipáticos, grossos, violentos e que ninguém falava inglês. A sentença mais correta é a última, pois eles realmente não falam nada além da língua materna. Primeira vez que fui ao Kremlin fui ao posto de informações tirar algumas dúvidas sobre os ingressos. Questionei a funcionária em inglês, ela me disse um monte de coisa em russo e me entregou um folheto. E é assim, no posto de informações do Kremlin não se fala inglês. Talvez tenha sido azar o meu, ela estava de mal humor ou o que seja, só sei que foi assim… Tirando que quando falamos com alguém, eles respondem em russo, então fazemos aquela cara de interrogação e eles começam a repetir a mesma coisa, mas gritando. Como se automaticamente passemos a compreender russo quando eles falam mais alto, quando na verdade o único efeito era me deixar nervosa, fazendo com que esquecesse até as poucas frases que tinha aprendido. 

Não posso negar que os russos são complicados. Eles não são de sorrir e não fazem o mínimo esforço para serem agradáveis.  

Mais duas anedotas: 

Estava com uma amiga argentina no guichê do metrô para carregar o bilhete. Ela disse meio em russo meio em mímica o valor que queria. A mulher no guichê começou a falar um monte de coisa e minha amiga com cara de paisagem, sem entender nada. A mulher desistiu, carregou o bilhete e bateu a persiana do caixa na cara dela. Quando vimos, a mulher tinha carregado um valor absolutamente nada a ver com o que minha amiga tinha pedido.  

Outro dia fomos a um museu com um amigo francês que escreve para guias de viagem. Na entrada, como é uma pratica comum em vários lugares, ele mostrou a credencial e perguntou se tinha algum desconto devido ao trabalho dele. A funcionária olhou para ele e disse o valor integral do ingresso. Ele tentou explicar novamente. Ela respondeu com o valor integral do ingresso. Ele aceitou que não teria nenhum benefício, então perguntou se ao menos ela teria um sorriso. Ela respondeu com o valor integral do ingresso.  

Algo que me passou muito pela cabeça é como eles irão fazer para receber os turistas Copa do Mundo em dois anos. Fico pensando nos hermanos argentinos, por exemplo, depois de umas doses de vodka sendo tratados com rudeza. A menos que os russo melhorem, isso não vai prestar!!!! 

Portanto, esse é sim um comportamento comum de se encontrar no cotidiano. Por outro lado, após passar um tempo com eles percebe-se que podem se mostrar receptivos, generosos, gentis. Talvez por ter passado meses em Malta e nos Balcãs, eu tenha ficado vacinada desse tipo de comportamento mais rude do que estamos habituados.  

Voltando a falar na cidade, ela é linda. Parques enormes e uma bela arquitetura. Por estar trabalhando no Hostel fui repetidamente em vários lugares turísticos. Visitei tantas vezes o Mausoléu de Lenin que quando eu chegava ele me perguntava como eu tinha passado a noite e se aceitava um cafezinho. 

É surreal ver o corpo do maior líder soviético parecendo um pequeno boneco de cera. A câmara é toda de mármore negro, com uma luz avermelhada e gelada até não poder mais. Há regras: não se pode falar alto, tirar fotos, manter as mãos nos bolsos.  


O Kremlin é um conjunto de museus e igrejas ortodoxas rodeados de belos jardins. As igrejas são enormes e cheias de detalhes. Para ir no Armoury, o principal museu no Kremlin, é necessário comprar outro ingresso e eles têm hora marcada. Neste prédio está uma coleção de artefatos e relíquias russas, como armaduras, carruagens, jóias, mobiliário, roupas do clero e da realeza e coroas. É no Armoury que estão os famosos Easter Eggs de Fabergé, que possuem uma delicadeza impressionantes. 


Os russos são, de forma geral, muito orgulhosos de sua história e de suas conquistas. Isso é visível nas centenas de monumentos espalhados pela cidade e no simbolismo de sua arquitetura. Um dos grandes marcos são as 7 Sisters, sete arranha-céus construídos a mando de Stalin para abrigar os meandros da burocracia soviética.  

Outro símbolo disso é o Cosmonautic Museum, uma ode às conquistas espaciais. Nele é possível acompanhar a evolução da tecnologia soviética que foi tão desafiante para os arqui-inimigos ianques. Esse museu fica em frente ao VDNKh Park, um centro de convenções onde há um pavilhão para cada uma das nações que compunham a URSS e a famosa Fonte da Amizade dos Povos. No verão, ao menos, o parque fica lotado aos fins de semana e sempre tem algum tipo de show ou evento.  


Uma das minha maiores surpresas foi conhecer as Tretyakov Galleries. Tretyakov foi um rico colecionador de arte russa que acreditava que essa mesma arte deveria ser compartilhada com quem de direito, o povo russo. Ele então comprou uma imensa propriedade, alocou toda a sua coleção e abriu as portas. Quando da Revolução, a Galeria foi incorporada pelo governo, que continuou a acrescentar novas aquisições. Hoje a coleção é dividida entre Tretyakov Gallery, onde estão obras do século XII ao início do século XX e a Tretyakov Modern Art, que abrange o século XX e a arte contemporânea.  

Quando vamos a galerias de arte ao redor do mundo há um eurocentrismo evidente em todas as coleções e quase não vemos nada que fuja disso. O que é um enorme desperdício, diga-se de passagem. A arte russa não deixa nada a desejar aos grandes pintores mundiais. É possível ver a influência dos movimentos artísticos europeus em obras que são essencialmente russas, transbordantes de suas particularidades. Na Modern Art é fascinante ver a mudança de estilos que acompanham o passar dos anos e suas alterações histórico-sociais, de um começo de século XX influenciado pelas escolas europeias, para o extremo realismo soviético e a posterior ruptura com o enfraquecimento do regime. Para todo e qualquer sociólogo chato em que a arte é uma manifestação das estruturas sociais, é um deleite acompanhar essa linha do tempo em forma de quadros e esculturas.  


Mas o que mais me encantou em Moscou são suas estações de metrô, que são verdadeiras galerias de arte subterrâneas. Tudo é grandioso, da arquitetura aos mosaicos e esculturas. A malha metroviária foi construída durante o regime soviético por trabalhadores para trabalhadores. No todo é uma homenagem ao operariado, camponeses e artistas que moldaram a nação.  


Enfim, eu morei um mês em Moscou e não suficiente para ver e viver metade do que eu gostaria.  

Como disse antes, fui para lá para trabalhar em um Hostel. Nesse ponto eu já havia passado por todas as escalas de trabalho possíveis, como limpeza, arrumação, recepção. Mas neste a proposta era completamente nova: minha função era entreter os guests. Conversar com eles, fazer programas juntos, unir viajantes que estavam sozinhos, tirar fotos, cuidar das redes sociais, organizar jantares e eventos.  

E isso me pareceu o paraíso.  

Nos primeiros dias eu trabalhei com outra voluntária da Argentina e tudo correu muito bem, pois nos entendíamos perfeitamente e as coisas funcionaram. Depois de poucos dias ela foi embora e eu fiquei sozinha para realizar essa missão. Foi um período maravilhoso. Conheci pessoas incríveis, de países e culturas que até então nunca tinha tido nenhum contato.  


Foi um desafio enorme cumprir esse papel social, pois quem me conhece sabe que não tenho problemas para fazer amizade ou conversar com estranhos, com pouco incentivo, um olhar mais longo que seja, já desembesto a falar, mas sou um pouco introspectiva e demoro um pouco para dar o primeiro passo. Portanto, ter que fazer isso e conversar com todos, independente do incentivo (até porque, esse era o MEU papel) saiu completamente da minha zona de conforto.  

Nas duas primeiras semanas encarei e cumpri minha função com certa desenvoltura, mas depois eu comecei a sentir a tensão. Definitivamente eu não sou o tipo líder de torcida que está sempre animada e de bom humor. Em muitos momentos eu quero só ficar quieta no meu canto e precisa ser muito interessante para me tirar no meu mundo, porém eu não conseguia ficar nenhum minuto sozinha e tinha a obrigação de ser simpática o tempo todo. Tem alguma ideia da tortura que é me forçar a ser legal quando acordo, antes de tomar um banho e engolir alguns litros de café?!?! Por isso, depois de algum tempo tudo começou a parecer muito forçado. Eu continuei a trabalhar, mas não tinha mais o mesmo encanto de antes.  

Essa temporada de “líder de torcida” foi importante para eu ver que posso desempenhar esse papel se precisar, para eu perder a timidez, perder o medo de me sentir ridícula para as pessoas que não conheço. Foi como um exercício de personalidade e serviu para eu aprender que mesmo podendo ser, eu não quero ser legal o tempo todo.  

Resumindo em poucas palavras, por tudo que a Rússia representa e por tudo o que vivi nessa surpreendente cidade, meu tempo em Moscou foi algo único e uma das experiências mais importantes da minha vida.  

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