Primeiro aniversário 

E lá se vai mais de um ano…

Andei um pouco melancólica por esses dias. Revistando filmes, livros, músicas, pessoas.

Por um lado, parece fragmentos de uma outra vida. A vida de alguém que não sou eu. Por outro, é exatamente fragmentos de quem eu sou, do que me trouxe até aqui.

E muita, muita coisa aconteceu nesse meu último ano.

Recapitulando:

Há um ano eu botei uma mochila nas costas e parti. Parti de caso pensado, com muita expectativa, mas sem muitos planos pré-definidos.

Como já dito diversas vezes, comecei pelo Camino de Santiago.

Quão louca tem que ser para sair do seu país sozinha, com um inglês meia boca, sem nenhum preparo físico e encarar mais de 800 km de caminhada?

Bom… Tão louca quanto eu e isso não é pouco…

Fiz o Camino inteiro, aprendi a ler meu corpo, botei alguns pontos finais, pensei sobre tudo, sobre quem eu sou e sobre quem quero ser, conheci irmãos de alma.

Dei um restart na vida.

Não há dúvidas de que a Shaula que começou o Camino não foi a mesma Shaula que saiu dele. Ao mesmo tempo em que somente me tornei ainda mais eu mesma, mais inteira, mais completa.

Então fui pra Malta…

Estudei menos que devia e trabalhei mais do que gostaria.

Estudando tive contato com pessoas de culturas completamente diferentes em uma relação que somente foi possível devido ao tipo de experiência que é um intercâmbio. Trabalhando pude viver na pele o que é servir. Senti na pele o que é ser tratada como uma “não-pessoa”, o que é ser menos que um fantasma. Também, e mais importante, aprendi o significado de realmente trabalhar em equipe e o quanto um simples “olhos nos olhos” pode fazer total diferença no fim do dia.

Por fim, fiquei em Malta o tempo exato que precisava. Nem mais, nem menos. Fechei um ciclo lá.

Depois vim para Londres.

Quem me conhece sabe o quanto esse era um sonho. Cheguei toda animada, com um trabalho, um lugar para ficar e cheia de expectativas. Mas minha relação com tudo foi um pouco contraditória. Em pouco tempo comecei a me sentir extremamente confortável na cidade, aprendi a me mover, decifrei a lógica no caos e, talvez por esse motivo, passei a desejar viver de verdade em Londres e esse desejo de uma vida normal, com um trabalho normal e relações normais enquanto eu só tinha uma vida em suspenso me deprimia um pouco.

Quem observa as fotos e posts de quem está na estrada imagina que a vida é fácil. Lugares lindos, pessoas incríveis, experiências impressionantes e isso tudo é a pura verdade, porém não o tempo todo.

Um dos fatos que abalou minha passagem por Londres foram as condições de trabalho a qual me submeti.

Trabalhava no esquema de trocar trabalho por hospedagem. Minha função era de cleanner/ housekeeper e já havia aprendido em Malta, melhor que em toda minha experiência pregressa que trabalho é somente trabalho, independente de quão duro ele seja. E, sendo sincera, não achei de todo ruim começar do começo, da mais básica função em um Hostel.

Eu, que limpava a casa inteira da minha mãe só para não limpar o banheiro, me vi limpando privada 5 dias por semana. Depois de um mês, de ter aprendido tudo o que tinha para aprender, percebi que esse não era um trabalho que eu gostaria de fazer por muito mais tempo.

Apesar do trabalho duro, esse não foi o grande problema. A minha passagem pelo Hostel não foi das melhores por causa do dono, que mostrou-se um homem egoísta, que humilhava as meninas do staff apenas por ter o poder para fazer isso, que em momento nenhum fez qualquer esforço para nos conhecer e que a cada dia demonstrava ser mais cruel. Para exemplificar, ele demitiu uma funcionária grávida para não pagar os direitos trabalhistas, uma outra que trabalhava há dois anos deu o aviso prévio de 20 dias e ele em três dias mandou ela sair do Hostel pq “não precisava mais dela”, outra deu o aviso prévio também e ele simplesmente mudou o prazo mínimo do aviso e quando ela disse que não poderia cumprir por ter se comprometido com o outro trabalho ele a mandou arrumar as coisas e sair do Hostel em 2 horas. Já comigo, quando avisei que estava indo embora em um domingo ensolarado a frase gentil que teve para me falar foi “What kind of bitch I was to do this?!?”.

E esse tipo de coisa me corrói por dentro. Não consigo receber ordem de quem não respeito e não há a menor possibilidade de eu respeitar alguém como ele. Essa situação estava acabando com o meu prazer por estar em Londres, eu estava o tempo todo doente e cansada demais para aproveitar meus dias livres, portanto dei um jeito de sair disso.

Comecei a buscar algumas alternativas e pelo Worldpackers encontrei um Hostel em Liverpool. Chegando já pude sentir a diferença na atmosfera entre um lugar e outro. Na primeira noite conversei mais com o gerente daqui do que com o dono do Hostel em Londres nos 4 meses que fiquei por lá.

Liverpool é uma cidade menor e, em alguns sentidos, mais autêntica que Londres. É uma mistura de polo cultural, fábricas abandonadas e velhas construções. Fora os Beatles…



O Hostel é pequeno e bem estilo mochileiro. O staff, formado no momento por uma maioria espanhola, é muito aberto e o gerente é de uma gentileza impar, o que faz com que o clima aqui seja extremamente acolhedor.

Estando aqui tenho a certeza de ter feito a escolha certa, mesmo sentindo falta de Londres e dos amigos que fiz por lá.

Assim, aqui estou eu mais de um ano após ter partido do Brasil, no meu terceiro país, levando uma vida leve, sem planos, sem cobranças, sem arrependimentos.

Todos os dias sinto que abro mão de alguma coisa para estar aqui. E todos os dias tenho a certeza de que abriria mão de muito mais. E que faria tudo novamente.

Quando comecei imaginei que depois de um ano eu já estaria pronta para voltar.

Mas ainda não estou.

Quero mais.

Quero o mundo inteiro.

Não consigo aceitar menos do que tudo.

E ainda não sei onde essa ânsia, essa fome, pode me levar.

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