Sabe, sou uma pessoa péssima para datas.

Sempre fui. 

Consigo lembrar somente o conceito geral, nunca datas exatas. 

E sei que o final de novembro marca duas datas importantes para mim, pelo mesmo “motivo”. 

Uma há 10 anos e outra há 5 anos. 

Há 10 anos eu tinha 17 anos de idade. 

Quem eu era aos 17 anos? 

Eu era uma adolescente que achava que conhecia todas as verdades do mundo. Que tinha certeza sobre tudo, sobre o que era o amor, sobre o que era a tristeza. 

Há 10 anos eu só usava preto e coturno, eu acreditava no anarquismo e tinha uma visão simplista do que era o comunismo. 

Há 10 anos eu achava que podia mudar o mundo somente me opondo a ele. 

Há 10 anos eu me sentia presa em uma vida medíocre e sonhava com um mundo imenso, cheio de novidade, cheio de coisas e de pessoas incríveis.

Há 10 anos eu não acreditava no amor e em relações monogâmicas. 

Há 10 anos eu me apaixonei. E eu demorei mais de 6 meses para entender que tinha me apaixonado. Eu fiz o inferno na vida desse meu “amor” justamente por não conseguir entender o que estava acontecendo comigo. 

E, mesmo sem entender, há 10 anos eu continuei. 

E vivi isso. Completamente. Com medo mesmo. 

Há 10 anos eu sabia que era sozinha. Que não podia contar com ninguém. Que tinha vários amigos, mas que quando chegasse a hora eu estaria por minha conta.  

Há 10 anos eu falei isso inúmeras vezes e me responderam que isso não era mais verdade. Que eu não estava mais sozinha e que quando tudo acabasse eu ainda teria um amigo. 

Há 10 anos eu acreditei nisso e baixei a guarda. Eu me deixei levar. 

E foi bom. Foi intenso. Foi verdadeiro. 

Há 6 anos eu passei pelo o que podemos chamar de “prova”. 

Há 6 anos eu passei pela maior provação da minha vida. 

Há 6 anos eu fui obrigada a confrontar as crenças que eu deveria ter. 

Há 6 anos me pediram para rezar pela vida da única pessoa que eu tenho na vida.  

Há 6 anos eu confirmei que eu não tinha para quem rezar. 

Há 6 anos eu busquei por aquele que me disse que eu não estaria sozinha.  

E ele me faltou. 

Há 6 anos, sozinha em uma escadaria, eu quebrei em mil pedaços. Nessa mesma escadaria eu juntei os pedaços, ignorei a dor e segui com minha vida. 

Há 6 anos eu tentei ser uma boa filha, uma boa irmã. 

Mas eu continuava quebrada. 

Há 6 anos eu passei um ano sem ser eu. Sem ser aquela de antes, sem estar naquele momento e sem saber quem viria a seguir. 

Há 6 anos eu vivi um “não-ano” sem saber que não vivia. 

Há 5 anos o encanto se desfez. Eu não era quem eu fui e não podia continuar sendo ninguém. 

Há 5 anos, também no final de novembro, tudo mudou. Eu voltei a ser de fato sozinha. Eu voltei a entender que quando a hora chegasse eu só poderia contar comigo mesma. 

Há 5 anos fiz minha primeira tatuagem, eu aluguei meu apartamento, eu voltei pra casa.

Eu enlouqueci há 5 anos. 

E, com o passar dos meses, eu voltei a ser eu. 

Há 4 anos eu voltei. Voltei mais arisca, mais desconfiada, mais fria. 

Há 4 anos, depois de tudo, não havia mais lugar para paixões, para promessas. 

E desde então eu fui seguindo, fui vivendo. 

Fria, arisca, mas vivendo. 

Há 1 ano decidi mudar tudo de novo. Decidi reviver aquele sonho adolescente onde o mundo nada mais é que lugares no mapa. 

Há 8 meses coloquei minha mochila nas costas e parti.

Além de todas as experiências bizarras, voltei a me interessar pelas pessoas. 

Há 6 meses voltei a sentir tesão físico e mental, mas como era para ser, agora não é nem a hora nem o lugar.

Mas me mostrou que não estou morta por dentro.

Que continuo viva e querendo viver toda e qualquer experiência que o mundo possa me proporcionar.

E enfim…

Hoje eu olho e vejo que me tornei a mulher que a menina de 17 anos queria ser. 

Aos 17 anos eu sonhava em morar fora, em conhecer outras culturas. 

Eu sonhava em conhecer o mundo. 

Hoje, aos 27 anos, estou há 6 meses morando em uma ilha no Mar Mediterrâneo. 

Hoje, aos 27 anos, sei que fui capaz de andar mais de 800 km em 33 dias fazendo o Camino de Santiago. 

Hoje, aos 27 anos, eu sou uma mulher forte, independente, determinada.  

Eu consigo olhar para o mundo com a certeza de que ele me espera e que depende somente de mim ir para um lugar ou para outro. 

Então olhando para trás, apesar de todos os pesares, sim, tenho certeza que me tornei a mulher que aquela menina queria ser. 

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