Da série: Momentos que fazem valer

Depois de ficar 1 hora na fila para entrar no Mausoleu de Lenin, chega o momento de abrir a mochila e passar pelo detector de metais.
Abro a mochila, a coloco na mesa, o soldado me cumprimenta em inglês e me pergunta de onde sou.

Digo que sou do Brasil e segue o seguinte diálogo:
– Brasileira?

– Sim.

– Ronaldo! Futebol! Olimpíadas agora?!?! 

(Nessa ordem e com essa entonação)

– (risos) Sim… Ronaldo!!!

– Que legal!!! Bem vinda!!!

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Dos lugares: Moscou (o início)

 Sou sempre medrosa para passar na imigração, mas depois das minhas entradas e saídas pelos Balkans, acabei ficando mais tranquila. Vim para Moscou com o passaporte e só. 

Na imigração tava tudo meio bagunçado e, como na Lei de Murphy, minha fila não andava. Quando estava esperando reparei que tinha um rapaz com passaporte brasileiro nas mãos no guichê ao lado. Ele começou a ser atendido pouco antes de mim e ouvi ele respondendo que estava lá a turismo, que depois ia para a Finlândia, que tinha o comprovante do Hostel, etc.  

Eu gelei. Não tinha nada disso. Chegou minha vez, a agente pegou meu passaporte, mal olhou na minha cara, não perguntou absolutamente nada, carimbou meu passaporte e me devolveu. 

Era isso, eu estava oficialmente na Rússia.  

Quando estava conversando com o Hostel, o gerente disse-me que iria me encontrar no aeroporto, então sai na área de desembarque, olhei, olhei e não havia ninguém. Esperei uns 20 minutos e resolvi ir sozinha pro Hostel. Saquei dinheiro e fui para o ponto de ônibus, quando fui entrar o motorista não aceitou porque eu só tinha uma nota alta. 

Um cara atrás de mim me perguntou, em russo, o que tinha acontecido, eu tentei explicar em inglês, ele entrou no ônibus e pagou minha passagem. DO NADA!!! Durante todo o caminho fomos conversando. Ele em russo e eu em inglês. Ele disse que me ajudaria no metrô também, pois iria fazer o mesmo caminho. Descemos no metro, ele pagou novamente minha passagem e foi todo o caminho até o Hostel comigo. 

Cheguei, me mostraram o lugar e fizeram com que me sentisse bem vinda. Pouco depois chegou o gerente do Hostel, pediu desculpa pelo mal entendido e me deu um buque de flores.  

E essa foi minha recepção pela “gelada” Rússia. 

Ou seja, em apenas algumas horas já fiquei encantada… 

Dos lugares: Montenegro

Em maio chegou a hora de me despedir de Londres e seguir com a vida. Meus planos não possuem nada de pre-definidos e tenho ido para onde sopra o vento. Montenegro me parecia um lugar tão bom quanto outro qualquer, então lá fui eu. 

 Primeira parada foi na capital Podgorica. A cidade é pequena e na verdade não há muito o que fazer e não é tão bonita. Há um parque que é tranquilo, bom para caminhar, passar um tempo em silêncio e isso é tudo. 

De Podgorica fui direto para a cidade que eu imaginava que seria minha casa pelos próximos 3 meses. A cidade em si é pequena e o que mais chama a atenção é um imenso e moderno Porto recém construído, cheio de yatchs e lojas caríssimas, mas Tivat fica no meio do litoral de Montenegro em um lugar estratégico para se conhecer as outras cidades da região. 

A mais interessante é Kotor, que é muito bonita, encravada entre montanhas e que possui um centro histórico tombado pela UNESCO. Da Old Town é possível subir ao forte datado do século IX, claro se você tiver fôlego pra isso, pois são mais de 1.500 degraus até o topo, mas que vale a pena. A vista do alto do forte tira mais o fôlego que a subida. 


Budva também fica próximo à Tivat e é uma cidade mais turística, cheia de restaurantes e baladas. 

O Hostel que fiquei era ótimo. Uma área comum incrível, com toda a sorte de instrumentos musicais, um bar, uma rede. Do rooftop tem-se uma vista linda da baia de Tivat e é um bom lugar pra relaxar tomando sol. Além de tudo isso, eles têm um cão. Uma Golden de, na época, 3 meses extremamente carinhosa chamada Budza. 




Achei que tinha tirado a sorte grande. Um bom lugar, acomodação e as 3 refeições free, um staff bacana. 

Mas como quando a esmola é muita o santo desconfia, não poderia ser assim tão perfeito. Logo no primeiro dia me fizeram um estranho pedido. Os donos do Hostel tem 4 filhos: um menino de 13 anos, duas garotas de 4 e 3 anos e um bebê de um aninho. O pedido era que eu cuidasse das crianças ao invés de trabalhar no Hostel. Quando eu cheguei éramos em 5 no staff, eu, um brasileiro, um espanhol, um mexicano e um irlandês. Eu era a única garota e fui a única para quem isso foi proposto. Sexismo? Imagina!!! 

Enfim, eu não estava numa posição que realmente me permitisse recusar, então topei. 

O mais velho quase não ficava lá e o bebê era até que tranquilo, mas as duas meninas eram a encarnação do demônio. A mais velha pelo menos falava um pouco de inglês, apesar de não me obedecer de maneira nenhuma, já a menor não falava uma palavra em inglês e tudo o que sabia fazer era gritar como se eu a estivesse matando quando eu falava alguma coisa ou me aproximava. 

Passei duas semanas assim, mas isso não era o que eu queria. Se quisesse trabalhar de babysitter, eu teria procurado um trabalho como esse, não para trabalhar num Hostel. Quem me conhece sabe que eu não morro de amores por crianças e, no geral, elas também não gostam muito de mim, por isso comecei a procurar outros lugares para ir antes que acabasse os 3 meses. 

Encontrei um lugar para ficar na Croácia e avisei que em duas semanas eu iria embora. Depois disso, as coisas melhoraram consideravelmente. 

Eu passei a trabalhar somente no Hostel e nós do staff (eu, o brasileiro e o irlandês) nos entendíamos muito bem. O trabalho fluía e passávamos um ótimo tempo juntos. Ensinamos o irlandês a jogar truco, ouvíamos boa música, dormíamos no rooftop quando o tempo estava bom. O Hostel recebia alguns grupos grandes de 40/45 pessoas e quando era dia de grupo (que por ironia do destino era sempre majoritariamente de brasileiros) fazíamos o jantar para todos, assim aprendi a fazer goulash, servíamos o jantar e depois bebíamos até de manhã. 

No final, apesar dos pesares, tirei sim a sorte grande e acabei passando um ótimo mês em Montenegro. 

Da série: Momentos que fazem valer

Fui para Zagreb sem muitos planos do que fazer. Acordei no Hostel e conversa vai, conversa vem, decidi acompanhar um brasileiro ao cemitério da cidade e depois caminharmos aleatoriamente pelo centro de Zagreb. 

Em dado momento entramos em uma loja bonitinha, pois ele estava procurando algum souvenir. Atendendo estava uma das pessoas mais simpáticas que encontrei em todo o meu tempo nos Balcãs. 

Ela nos mostrou os imãs de geladeira, explicou o porque eram mais caros do que os encontrados normalmente em lojas de souvenirs, nos ofereceu chocolate, nos apresentou a alguns tipos de home-made rakija (todas deliciosas), nos explicou como a pêra crescia dentro da garrafa e ainda compartilhou um pouco de sua história. 

Ela morava com a família em uma cidade pequena da Croácia durante a Guerra de Independência. Quando a Guerra acabou, mudaram-se para um cômodo em Zagreb cuja janela era no nível do calçamento. Na primeira noite no novo lugar, por volta das 3h da manhã, ela foi acordado pelo barulho de tanques de guerra passando em fremente sua janela. Esqueceram de avisar que iriam fazer o deslocamento dos tanques de madrugada.  

Seu pai morreu pouco depois, mas mesmo com todo o horror vivido durante a guerra, essa é a memória que mais a marcou desse longo período. 

Acordar com tanques na sua porta quando já se imaginava em segurança.  

Dos lugares: British Museum

Eu, particularmente, gosto de museus. Gosto de andar por corredores cheios de histórias. Sinto como se cada uma das obras possuíssem uma energia acumulada tanto por seu artista, como pelas milhares de pessoas que de alguma maneira foram tocadas por elas. 

Por isso o British Museum era um sonho de consumo. 


Só imaginar a quantidade de conhecimento humano acumulado nas dezenas de salas desse singular museu já me arrepiava. 

E quanto entrei pela primeira vez foi de tirar o fôlego. Foi mais do que eu esperava. Correr os olhos pelas escrituras nas estantes protegidas, nas centenas de esculturas e peças arquitetônicas de tempos imemoriais é impressionante. 

Porém, ao mesmo tempo em que estava maravilhada, comecei a me perguntar se era certo tudo aquilo estar ali. Não são obras de arte, não são pinturas. São pedaços da história humana e praticamente tudo que está lá é fruto da expropriação desses bens de seus lugares de origem. 

É correto, por exemplo, que a Pedra de Roseta, algo tão essencial para se entender a milenar cultura egípcia esteja em um museu em Londres e não exposta em um museu no Egito? 

É óbvio que é interessante que tantos tesouros estejam reunidos em um único lugar, ainda mais sendo um lugar como Londres, que é uma capital do mundo, mas não seria uma questão de respeito histórico que cada lugar pudesse manter esses fragmentos tão importantes de suas formações históricas? 


E esse sentimento dúbio me moveu durante toda a visita. 

Por um lado, eu era extremamente grata por ter a oportunidade de ver tanto da humanidade em um só lugar e, por outro, eu me sentia mal por saber que a possibilidade de encarar sua própria evolução foi “roubada” de tantos povos ao longo da história. 

E encarar o fato de que quem detém o poder, ou seja, as grandes potências não expropriam somente a força humana alheia, mas também levam consigo a história e parte daquilo que constitui e identifica como um povo coeso todas as demais sociedades. 

Dos lugares: Stonehenge e Salisbury

Entre os meus lugares de sonho de conhecer sempre esteve Stonehenge, que nada mais é que um círculo de pedras no sudoeste da Inglaterra construído há mais de 3.000 anos A. C.. Ninguém sabe exatamente quem o construiu, como e qual sua exata finalidade.

Há muitas lendas sobre isso e por muito tempo acreditou-se que fora construído pelos celtas e seus druidas, porém Stonehenge data de mais de 1.000 anos antes dos druidas aparecerem por aquelas terras, mesmo que eles tenham posteriormente feito uso deste local dito sagrado. 

Há ainda os que ao olharem para essas pedras se perguntam “Eram os deuses astronautas?” e colocam Stonehenge ao lado de construções como as Pirâmides do Egito e os Moais Rapa-Nui da Ilha de Páscoa. 

Independe dessas teorias, sabe-se que o círculo de pedras está posicionado de forma que o nascer do sol no Solstício de Verão, o dia mais longo do ano, incide com perfeição na abertura de um de seus arcos. Isso nos faz deduzir que Stonehenge era utilizado para fins religiosos e para a marcação de aspectos astrológicos. 

Na verdade, pouco importa os motivos e suposições. Ao chegar e encarar esse imenso círculo de pedras tem-se a exata noção de seu poder ancestral mesmo após tantos anos. Somente por sentar e observá-las, sentindo o vento e tentando imaginar as milhares de pessoas que as ergueram e comungaram em um lugar tão mágico é emocionante. 


Perto de Stonehenge é possível visitar o Old Sarum, que são as ruínas do palácio e da igreja originais que deram surgimento à cidade de Salisbury. 


O jeito mais fácil de chegar em Stonehenge é pela cidade de Salisbury. Há ônibus de Londres, a viagem dura em média 3h30 e custa em torno de £ 12. 

Não posso falar muito sobre hospedagem, já que fiquei na cidade através de Couchsurfing (aliás, minha primeira experiência do tipo, na casa de um casal extremamente acolhedor e simpático). 

Salisbury é uma cidade pequena é provinciana, com um lindo rio a corta-lá e vale muito a pena despender um dia para conhecê-la. 


Tem uma linda e imensa Catedral em estilo gótico datada do ano de 1220 que possui alguns marcos importantes. É dela a mais alta torre da Inglaterra e o mais antigo relógio em funcionamento do mundo. 


É também na Catedral de Salisbury que está a cópia mais bem preservada da Magna Carta, documento assinado em 1215 que limitava os poderes do Rei e é considerada o primeiro marco nas definições de direitos e justiça, lança as primeiras bases para o constitucionalismo e viria a influenciar a política no mundo inteiro.  


Quando estava na cidade pude ver uma exposição temporária da artista plástica Sophie Ryder é isso teve grande impacto para mim. Sua obra são esculturas gigantescas de seres híbridos entre humanos e animais com forte influência pagã. O mais interessante é que as obras estavam circundando todo o parque da Catedral e alguma de suas obras estavam inclusive no interior da Catedral. 


Mesmo em pouco tempo na cidade essa é uma característica de fácil observação: o sagrado e o profano dividem o mesmo espaço e essa ambivalência parece ter-se encravado até nas pedras do calçamento. 

Bus Londres-Salisbury – £ 12 

Bus + Old Sarum + Stonehenge – £ 28

Sunset


“Não tenho pressa

Nem me interessa 

Quanto tempo vou levar 

Não vou me permitir 

Fingir que tô legal sem tá 

Quanta social 

É tanta ambição 

Pra conseguir o que se querer 

Perder, ganhar, isso não me vale

Prefiro mil vezes 

Ir pras bandas de lá 

Fui viajar pra ver o Sol morrendo no mar” 

Mariana Aydar

Dos lugares: Shoreditch

Londres tem a tradição de ser um lugar inovador, onde você pode ser quem quiser sem ninguém te julgar.

Isso propicia que os mais diversos movimentos culturais tomem forma e, como em pequenos guetos, dominem bairros distintos. 

O mais famoso deles é Camden Town, que ainda tem seu charme mais pela lenda do que por atual produção cultural. A fama e os turistas “expulsaram” os artistas, pois a especulação imobiliária corre solta e não há como se manter. 

Hoje em dia, uma das regiões mais interessante, autêntica e fervilhante é o bairro de Shoreditch e a região de East London. Infelizmente a especulação está fazendo seu trabalho por lá e muitos artistas têm se mudado para bairros como Dalston, mas Shoreditch ainda resiste. Aqui se concentra os mais diversos mercados, pubs, clubes, galerias, restaurantes, etc… 

Em outras palavras, é um bairro hipster e, por mais que eu reclame tenho que admitir, eu gosto desse clima. 

Dá para gastar vários dias por aqui e recomendo começar por um domingo que é o dia mais movimentado. Logo pela manhã começa o Columbia Road Flower Market, que é uma feira livre com todos os tipos de flores que você pode imaginar e se extende por toda a rua. Não se engane ao pensar que por ser um mercado de flores num domingo de manhã será vazio, é tão cheio que é quase impossível andar. Por trás das barracas há também uma infinidade de adoráveis cafés e charmosas lojinhas de decoração que dão vontade de estourar o limite do cartão de crédito e de bagagem e comprar tudo o que ver pela frente. 

Columbia Road Flower Market

Esse era uma das horas que batia forte a vontade de morar em Londres. Ver a quantidade de pessoas que saíam com os braços carregados de flores e mudas fazia meu coração doer um pouquinho por não poder fazer o mesmo. Sem falar, é claro, dos músicos de rua que ocupam cada espaço vago e me faziam me apaixonar por todos eles sem distinção.  

Depois do Columbia Road pôde-se ir à Brick Lane que concentra a maior quantidade de restaurantes indianos que prometem “o melhor curry de Londres” e também tem o Upmarket, cheio de roupas vintage, acessórios e objetos de decoração. 

Se estiver em Londres no verão o bairro também é conhecido por suas rooftops partys. Quer algo mais hipster que curtir o verão londrino tomando um pint de Ale ou cidra em um rooftop em Shoreditch?!? 


Bom, em Shoreditch tem como ser mais hipster que isso sim… 

Aqui não há a necessidade de entrar em qualquer galeria para observar arte de qualidade, o bairro é uma galeria à céu aberto. Vá para essa região em um dia mais tranquilo, com tempo, munido de sua máquina fotográfica e se perca pelas ruas cheias de graffittis. 

Desde que cheguei aqui quis fazer esse role, mas sabe como é, a vida vai acontecendo e vamos deixando pra depois. Quando voltei para ser somente turista foi uma das primeiras coisas que fiz. 

Eu poderia dar uma relação de ruas pelas quais passei, pode-se ir para a Witby Street, Old Street, Commercial Street, etc, mas o fascinante da Street Art é que ela é temporária e se revoluciona constantemente. Não adianta muito eu te dizer vá aqui ou vá ali que verá tais e tais obras, pois nem sei mais se elas estão por lá. 

O que indico é: se perca pelo bairro. Ande sem rumo. Deixe os olhos bem abertos, pois a cada esquina há um lindo desenho novo, há palavras de ordem, há novos protestos e se sinta bem vindo em Shoreditch. 


Dos lugares: Greenwich

Londres é uma cidade imensa e tem muito o que se fazer. Quando somos turista aqui é comum nos atermos aos roteiros tradicionais, até porque isso já é suficiente para preencher vários dias e acabamos deixando de lado lugares incríveis por serem um pouco mais longe.

E Greenwich é desses lugares que podemos acabar deixando passar. A princípio, ao olhar o mapa pensa-se que é longe e/ou difícil chegar, mas isso é besteira. Com o transporte londrino funcionando com a perfeição britânica, qualquer lugar é fácil. Saindo de Westminster Station basta pegar a Jubilee Line até a estação Canary Wharf e trocar para o DLR (Docklands Light Railway, que é como um veículo leve sobre trilhos que roda na região das docas) até Cutty Sark Station. Esse percurso dura em torno de 30 minutos.  

Em Cutty Sark há o navio de mesmo nome construído em 1869 que trazia chá da Índia para a Inglaterra que foi restaurado e transformado em um museu. Mesmo se você não entrar no museu, que custa £ 13,50, já vale a visita observar toda a estrutura por fora e a parte que é visível por dentro da loja de suveniers.  

Cutty Sark

Nesse ponto há também o Greenwich Foot Path, um túnel construído em 1902 que passa por debaixo do Thames. É incrível descer e andar em uma estrutura como essa, que resiste há mais de 100 anos, ouvindo o eco dos músicos de rua se tiver essa sorte, sentar do outro lado do rio e ver o sol refletindo no Thames. 

Foot Path Greenwich

Seguindo pelo bairro, em direção ao Greenwich Park há o National Maritime Museum, que é bem legal e interativo. 

O Painted Hall é o antigo hall do hospital naval e é a maior pintura decorativa do Reino Unido. É tão lindo e cheio de detalhes que dá para gastar um tempo só observando cada um das pinturas. 

Painted Hall

Continuando a subir entramos de fato no Greenwich Park. Ele é imenso e lindo. Só por ele já valeria a visita, pois é o tipo de lugar perfeito para ficar horas caminhando ou fazer um pic nic de final de tarde, mas a grande atração é o observatório que tem no coração do parque. É lá que fica a Flamsteed House, com seu mais que especial marcador de hora. 

No topo dessa casa há uma bola vermelha presa a um mastro e que todos os dias desde que começou a funcionar em 1833 começa a subir às 12h55, chega à meio mastro às 12h58 e às 13h alcança o topo. Todo esse ritual servia para informar as horas para os marinheiros no Thames e para os moradores de Londres e hoje continua por pura tradição.

É nessa casa também que fica o marco do Meridiano de Greenwich que divid o globo em Ocidente e Oriente. Infelizmente, enquanto quase tudo em Londres é gratuito, o Observatório custa £ 9,50. Como eu já estava contando moedas para poder comer, não era um dinheiro que eu poderia gastar. Mas já entrou para a lista do que fazer na minha próxima visita à cidade. 

Atrás do Observatório fica o Planetário, que possui uma exposição gratuita enquanto a entrada de fato é paga também. Vi somente a exposição gratuita e achei incrível. São painéis interativos que responde várias perguntas interessantes sobre a vida, o universo e tudo o mais e a resposta nem se reduz à 42.  

No fim, fui para Greenwich sem muitas expectativas e fiquei extremamente surpresa. É como uma cidade do interior dentro de Londres, com casas e ruas lindas, diversas opções culturais, charmosos pubs e restaurantes e um parque lindo que proporciona uma vista linda dessa surpreendente cidade que é Londres…   


Primeiro aniversário 

E lá se vai mais de um ano…

Andei um pouco melancólica por esses dias. Revistando filmes, livros, músicas, pessoas.

Por um lado, parece fragmentos de uma outra vida. A vida de alguém que não sou eu. Por outro, é exatamente fragmentos de quem eu sou, do que me trouxe até aqui.

E muita, muita coisa aconteceu nesse meu último ano.

Recapitulando:

Há um ano eu botei uma mochila nas costas e parti. Parti de caso pensado, com muita expectativa, mas sem muitos planos pré-definidos.

Como já dito diversas vezes, comecei pelo Camino de Santiago.

Quão louca tem que ser para sair do seu país sozinha, com um inglês meia boca, sem nenhum preparo físico e encarar mais de 800 km de caminhada?

Bom… Tão louca quanto eu e isso não é pouco…

Fiz o Camino inteiro, aprendi a ler meu corpo, botei alguns pontos finais, pensei sobre tudo, sobre quem eu sou e sobre quem quero ser, conheci irmãos de alma.

Dei um restart na vida.

Não há dúvidas de que a Shaula que começou o Camino não foi a mesma Shaula que saiu dele. Ao mesmo tempo em que somente me tornei ainda mais eu mesma, mais inteira, mais completa.

Então fui pra Malta…

Estudei menos que devia e trabalhei mais do que gostaria.

Estudando tive contato com pessoas de culturas completamente diferentes em uma relação que somente foi possível devido ao tipo de experiência que é um intercâmbio. Trabalhando pude viver na pele o que é servir. Senti na pele o que é ser tratada como uma “não-pessoa”, o que é ser menos que um fantasma. Também, e mais importante, aprendi o significado de realmente trabalhar em equipe e o quanto um simples “olhos nos olhos” pode fazer total diferença no fim do dia.

Por fim, fiquei em Malta o tempo exato que precisava. Nem mais, nem menos. Fechei um ciclo lá.

Depois vim para Londres.

Quem me conhece sabe o quanto esse era um sonho. Cheguei toda animada, com um trabalho, um lugar para ficar e cheia de expectativas. Mas minha relação com tudo foi um pouco contraditória. Em pouco tempo comecei a me sentir extremamente confortável na cidade, aprendi a me mover, decifrei a lógica no caos e, talvez por esse motivo, passei a desejar viver de verdade em Londres e esse desejo de uma vida normal, com um trabalho normal e relações normais enquanto eu só tinha uma vida em suspenso me deprimia um pouco.

Quem observa as fotos e posts de quem está na estrada imagina que a vida é fácil. Lugares lindos, pessoas incríveis, experiências impressionantes e isso tudo é a pura verdade, porém não o tempo todo.

Um dos fatos que abalou minha passagem por Londres foram as condições de trabalho a qual me submeti.

Trabalhava no esquema de trocar trabalho por hospedagem. Minha função era de cleanner/ housekeeper e já havia aprendido em Malta, melhor que em toda minha experiência pregressa que trabalho é somente trabalho, independente de quão duro ele seja. E, sendo sincera, não achei de todo ruim começar do começo, da mais básica função em um Hostel.

Eu, que limpava a casa inteira da minha mãe só para não limpar o banheiro, me vi limpando privada 5 dias por semana. Depois de um mês, de ter aprendido tudo o que tinha para aprender, percebi que esse não era um trabalho que eu gostaria de fazer por muito mais tempo.

Apesar do trabalho duro, esse não foi o grande problema. A minha passagem pelo Hostel não foi das melhores por causa do dono, que mostrou-se um homem egoísta, que humilhava as meninas do staff apenas por ter o poder para fazer isso, que em momento nenhum fez qualquer esforço para nos conhecer e que a cada dia demonstrava ser mais cruel. Para exemplificar, ele demitiu uma funcionária grávida para não pagar os direitos trabalhistas, uma outra que trabalhava há dois anos deu o aviso prévio de 20 dias e ele em três dias mandou ela sair do Hostel pq “não precisava mais dela”, outra deu o aviso prévio também e ele simplesmente mudou o prazo mínimo do aviso e quando ela disse que não poderia cumprir por ter se comprometido com o outro trabalho ele a mandou arrumar as coisas e sair do Hostel em 2 horas. Já comigo, quando avisei que estava indo embora em um domingo ensolarado a frase gentil que teve para me falar foi “What kind of bitch I was to do this?!?”.

E esse tipo de coisa me corrói por dentro. Não consigo receber ordem de quem não respeito e não há a menor possibilidade de eu respeitar alguém como ele. Essa situação estava acabando com o meu prazer por estar em Londres, eu estava o tempo todo doente e cansada demais para aproveitar meus dias livres, portanto dei um jeito de sair disso.

Comecei a buscar algumas alternativas e pelo Worldpackers encontrei um Hostel em Liverpool. Chegando já pude sentir a diferença na atmosfera entre um lugar e outro. Na primeira noite conversei mais com o gerente daqui do que com o dono do Hostel em Londres nos 4 meses que fiquei por lá.

Liverpool é uma cidade menor e, em alguns sentidos, mais autêntica que Londres. É uma mistura de polo cultural, fábricas abandonadas e velhas construções. Fora os Beatles…



O Hostel é pequeno e bem estilo mochileiro. O staff, formado no momento por uma maioria espanhola, é muito aberto e o gerente é de uma gentileza impar, o que faz com que o clima aqui seja extremamente acolhedor.

Estando aqui tenho a certeza de ter feito a escolha certa, mesmo sentindo falta de Londres e dos amigos que fiz por lá.

Assim, aqui estou eu mais de um ano após ter partido do Brasil, no meu terceiro país, levando uma vida leve, sem planos, sem cobranças, sem arrependimentos.

Todos os dias sinto que abro mão de alguma coisa para estar aqui. E todos os dias tenho a certeza de que abriria mão de muito mais. E que faria tudo novamente.

Quando comecei imaginei que depois de um ano eu já estaria pronta para voltar.

Mas ainda não estou.

Quero mais.

Quero o mundo inteiro.

Não consigo aceitar menos do que tudo.

E ainda não sei onde essa ânsia, essa fome, pode me levar.