Dos lugares: Bosnia & Herzegovina

  Para quem colou na escola

Toda a região dos Balcãs passou por diversos tipos de dominação desde o princípio de sua formação: romanos, bizantinos, turcos-otomanos, austro-húngaros. A denominação Iugoslávia surge em 1918 como Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos que reuniria os povos dessa região, pois possuem formação e cultura em comum, mesmo que com definições religiosas diferentes entre si e assim permanece até 1941 com a invasão nazi-facista. Durante a guerra, o General Tito lidera a libertação Iugoslávia e transforma o então reino em uma República Socialista. Com o fim do bloco soviético, todos os países sob o julgo socialista entram em crise e isso não seria diferente com a Iugoslávia. Em 1991 Eslovénia, Croácia, Macedônia e Bósnia & Herzegovina declaram independência, mas o que se mostrou relativamente tranquilo com os três primeiros territórios, com a Bósnia & Herzegovina desenrolou-se uma sangrenta guerra. 

  A Guerra da Bósnia

A Bósnia é um país étnico e religioso extremamente complexo. Sua população é formada por bósnios (majoritariamente muçulmanos), bósnios-croatas (majoritariamente cristãos) e bósnios-servios (majoritariamente cristãos ortodoxos). Com a desintegração da Iugoslávia o povo bósnio votou em um referendo aprovando a independência da pais. Essa decisão não foi definitivamente bem aceita pela Sérvia e pelos sérvios que viviam na Bósnia e enquanto as resoluções para a definitiva separação ocorresse eram tomadas pelo governo, os bósnio-sérvios se organizaram militarmente na auto-proclamada Republica Srpska e ocuparam boa parte do território bósnio, uma vez que eram infinitamente superior militarmente e contavam com o suporte da Sérvia. A guerra durou 1.606 dias, matou mais de 200.000 pessoas, sendo 83% bósnios, 65% muçulmanos e 30% eram mulheres e crianças. Apesar do conflito ocorrer em todo o território bósnio, a situação mais emblemática foi o cerco a Sarajevo, que é considerado o mais longo da história moderna. Sarajevo é uma cidade encravada entre um anel de montanhas. O exército sérvio se posicionou nessas colinas, cercaram a cidade e bloquearam todas as saídas, enquanto atacavam com artilharia pesada a cidade. Mais de 12.000 pessoas foram mortas e 50.000 feridas durante os quase 4 anos de cerco. Para se ter imagem do que foi esse cerco o aeroporto de Sarajevo após alguns meses de conflito foi posto em poder da ONU para fornecer suprimentos ao povo bósnio, mas com toda região cercada pelo exército sérvio, centenas de pessoas morreram tentando chegar ao suposto território neutro (diz a lenda que as forças da ONU jogavam um feixe de luz nas pessoas que tentavam chegar no aeroporto, facilitando enormemente o trabalho dos snippers sérvios). Com isso as forças bósnias decidiram construir um túnel secretamente, que hoje é conhecido como túnel da esperança e que salvou inúmeras vidas ao possibilitar o fornecimento de comida, medicação, armas, etc.  

  Massacre de Srebrenica

Com o desenrolar do conflito um caráter de limpeza étnica foi ficando mais claro. Uma das intenções era de fato exterminar os bósnios-muçulmanos e isso fica extremamente claro com o massacre de Srebrenica.  

Essa é uma cidade ao norte da Bósnia que em julho/1995 foi tomada pelo exército sérvio. Com isso, a população buscou refúgio em um campo da ONU, mas que ao estar em desvantagem numérica e não ter resposta ao pedido de reforços, começou a forçar as milhares de famílias muçulmanas a saírem do local. Os sérvios então separaram por gênero e mataram mais de 8.000 homens e meninos muçulmanos, no único ato reconhecido como genocídio após a II Guerra Mundial.

  Minha passagem pela Bósnia & Herzegovina

Quando eu tinha uns 13/14 anos me lembro de um professor que nos contou sobre a Guerra da Bósnia que havia acabado fazia poucos anos. Ele nos dizia que a cidade estava cercada por atiradores e que os moradores da cidade esperavam juntar uma certa quantidade de pessoas para poderem atravessar as ruas. 

Dessa forma, se protegiam e aumentavam um pouquinho a chance de sobreviverem. 

Sobreviverem aos simples ato de atravessarem a rua. 

Isso ficou marcado na minha memória. Quando decidi ir para Sarajevo ver de perto o centro desse massacre era uma grande motivação. Cheguei e encontrei uma cidade em que as marcas da Guerra são recentes e profundas. Para onde olhamos há marcas de balas, prédios parcialmente destruídos. E ainda assim, é uma cidade surpreendentemente multicultural e viva. Em um mesmo quarteirão é possível ver uma mesquita, uma catedral, uma sinagoga é uma igreja ortodoxa. 

Em Sarajevo trabalhei por duas semanas em um Hostel e por isso tive a oportunidade de me perder a andar sem rumo pela cidade. É impressionante ver as marcas de balas em cada uma das construções da cidade e ver as pessoas passando por elas como se não fossem nada. Ou pisando em uma das Sarajevo Roses (intervenção artística feita nas cicatrizes de bombas estouradas pela cidade, pois ao pintar essas marcas de vermelho elas se parecem com rosas).  

E por coincidência do destino, estava na cidade no último dia do Ramadã, quando os muçulmanos saem às ruas com suas melhores roupas para comer livremente e comemorar. 

Em um dos primeiros dias fiz um dos tours do Hostel que é percorrer as montanhas em volta da cidade e as fortificações do período otomano. Dos pontos mais interessantes é visitar os cemitério judeu, que é o segundo maior da Europa e foi linha de frente durante o Cerco. E também estar exatamente onde os soldados sérvios ficavam nas montanhas e miravam e matavam tantas pessoas aleatoriamente foi uma experiência indescritível. 

Conversei bastante com um dos meninos que trabalhava para o Hostel, o mesmo que era o guia do tour. Ele tem 22 anos e nasceu durante o Cerco. Quando perguntei do que ele lembrava, me disse que não lembrava de quase nada de antes dos 5 anos de idade, mas que seus pais contam muitas das coisas que eles viveram. Sua família estava escondida em outro ponto da cidade e quando o Cerco acabou eles foram todos para a casa dos avós no centro da cidade. Passado alguns dias sua avó lhe deu uva para ele comer e ele começou a brincar como se fosse uma bolinha de gude. Ele nunca tinha visto uma uva e o único brinquedo que ele conhecia era a bolinha de gude, nada mais lógico do que confundir ambas. 

Outra coisa interessante e preocupante é que o conflito não é estudado na escola, pois como na escola há bósnios, croatas e sérvios acaba sendo um ponto de conflito entre eles.  

De toda forma, a cidade é absolutamente incrível, pois apesar de toda dor passada recentemente, a cidade continua vibrante e intensa. 

Fato histórico interessante: foi nas ruas de Sarajevo em 1914 que o Príncipe Herdeiro do Império Austro-húngaro Franz Ferdinand foi assassinado, o que foi de certa forma um dos fatos que culminaram no início da I Guerra Mundial. 

  Mostar

Fui para Mostar meio que sem muitas expectativas. Sabia que a cidade tinha sofrido bastante na Guerra é que ainda hoje é visivelmente dividida entre muçulmanos e cristãos, mas não sabia muito o que esperar. 

Chegando na cidade descobri que era como entrar em um conto de fadas. Há uma imensa e linda ponte que atravessa o rio, nos levando por ruas de pedras para mercados tipicamente árabes com suas cores e cheiros.  


Há um tour em que é possível percorrer os arredores da cidade, visitando uma mesquita encravada em um paredão de pedras e cercada por um rio de águas cristalinas. Há também um parque com uma imensa cachoeira, em que costuma-se ser muito útil para refrescar em um dos dias quentes de Mostar. Como sou sortuda, o dia que eu fui estava frio e chovendo, portanto, nada de mergulhos para mim, mas que não diminuiu a beleza do lugar.  



Há uns 30 minutos de caminhada do centro da cidade encontra-se o Partisan Cemetery, um monumento aos mortos na II Guerra que está em parte abandonado e tomado pela natureza, o que proporciona uma certa paz e quietude. No caminho havia um hotel que foi construído pouco antes da Guerra da Bósnia e nunca foi de fato utilizado, já que foi destruído durante a mesma. Quando passei pela cidade fazia pouco tempo que tinha havido um festival de graffit, então o perdia ainda continha algumas boas obras de arte. 


A vida cultural também é interessante. Há diversos bares, pubs e o mais famoso clube é o The Cave, que apesar de a música não ser exatamente a que eu mais gosto, como o próprio nome diz é em uma “caverna”. 

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