Dos lugares: Hagar Quim and Hypogeum Hal Saflieni

Um dos fatos mais interessantes de Malta é que mesmo sendo de uma geografia complexa e composta por 7 ilhas “perdidas” no meio do Mar Mediterrâneo, esse arquipélago é povoado desde o Período Neolítico. 

“Mas Shaula, que diabos isso significa?” ou “Para você que colou na escola”

O Período Neolítico teve início por volta de 8.000 A.C e é caracterizado por uma evolução social importante com a aplicação da agricultura e da criação de animais, possibilitando assim a fixação de moradias sociais e uma maior interação entre os homens de sua própria tribo e o comércio (aqui no sentido amplo da palavra: 1. Compra, venda ou troca de produtos e/ou valores; 2. Relações sociais ou de amizade) com tribos vizinhas. 

O Período Neolítico é conhecido também como Idade da Pedra Polida e consiste no último estágio da Idade da Pedra. Com o advento da escrita, tem-se fim a Idade da Pedra e inicia-se a Antigüidade, com o florescimento dos povos egípcios e gregos. 

“Tudo bem, Shaula, mas o que isso tem a ver com você, Malta e o intercâmbio?” 

Quando estava pesquisando lugares para fazer meu intercâmbio uma das coisas que me chamaram a atenção em Malta foi justamente sua história. 

Nesse país de apenas 316 km2 há diversos templos megalíticos, sendo os mais importantes de Hagar Qim, Mnajdra e Tarxien em Malta e Ggantija em Gozo. 

Estudos apontam que esses templos datam de 3.600 A.C, o que nos dá em torno de 5.600 anos. Para se ter uma idéia, as Pirâmides do Egito que ainda é um dos grandes mistérios da humanidade datam de 2.600 A.C., portanto, 1.000 anos depois da construção dos Templos Malteses. 

Para mim, uma socióloga chata, isso tem todo o encanto e interesse do mundo. 

 

Eu fui nos Templos de Hagar Qim e Mnjdra, por enquanto. O de Tarxien está fechado e o de Ggantija está na lista. Os Templos de Hagar Qim e Mnjdra são “templos irmãos” e estão a menos de 1 km um do outro, situados em uma planície perto do mar.  

Não se sabe muito sobre os povos que construíram esses templos. Pelas características de construção somente podemos fazer suposições. Como por exemplo que os cultos realizados nesses lugares era de natureza especial e somente algumas pessoas da tribo podiam participar, uma vez que todos os templo possuem “portas” selando o interior. Em Hagar Qim há um orifício que permite a entrada completa da luz quando do Solstício de Verão, o que supõe uma função astrológica do Templo, podendo assim fazerem a contagem das estações do ano. Porém, do lado de fora dessa abertura há um altar. Por que um altar do lado de fora, na mesma direção que o Solstício? Será que em determinadas datas havia uma celebração aberta a todos e desse modo o interior do Templo continuava resguardado dos olhares mundanos?

  Abertura para o Solstício 

  Altar externo

Apesar da antigüidade desses Templos, as técnicas de construção são esplendidas. As pedras se encaixam em perfeita simetria e não há o que se discutir sobre a qualidade do trabalho, afinal se passaram mais de 5.000 anos e esses templos ainda estão de pé.   

O Hypogeum Hal-Saflieni está datado da mesma época e imagina-se que à princípio foi um santuário e depois tornou-se uma necrópole. Porém há um detalhe que o torna diferente de qualquer ruína: é o único templo subterrâneo do mundo.

Ele foi descoberto durante construções na cidade de Paola em 1.902 e é composto por 3 níveis. O primeiro está a apenas alguns metros da rua e é composto por covas pequenas e naturais, onde imagina-se os mortos eram primeiramente levados para que se iniciasse o processo de decomposição.  

No segundo nível encontramos importantes compartimentos. Na Oracle Room a acústica nos prega uma peça, pois uma voz de tenor, ao falar perto de uma das aberturas produz um eco que reverbera com perfeição. É na Oracle Room também que estão os desenhos circulares feitos em cor ocre no teto e paredes e que estão melhores preservados. Na Holy of Holies é uma das câmaras mais interessantes, onde esculpiram com perfeição em blocos maciços de pedra para que se parecessem com o tipo de colunas encontradas nos Templos da superfície. As técnicas de construção eram tão aprimoradas que algumas das colunas são curvadas para criar o efeito de “olho-de-peixe” e dar uma sensação de amplitude para o ambiente. É no segundo nível também que está a Snake Pit, uma abertura circular de 2 metros de altura que supõe-se que eram colocadas cobras para punir os invasores e resguardas as almas dos que ali repousavam. Na Main Chamber há diversas aberturas e foi onde encontraram a “Sleeping Lady”, uma estátua de uma mulher dormindo.

   O que ela significa? Uma homenagem à Deusa ou um adereço enterrado com seus mortos? 

  

No terceiro nível é onde os corpos se acumulavam. Nessas covas coletivas, calcula-se que mais de 7.000 pessoas foram enterradas.

Enfim, estar nessas ruínas, tocar nessas pedras polidas que mãos humanas desenharam há milênios, entrar em um lugar de culto tão importante que os fizeram desenvolver tecnologias para transportar pedras de 20 toneladas ou escavar 3 pavimentos abaixo do solo é impressionante.

Sei que não é o tipo de turismo que todos gostam de fazer, mas para quem tiver oportunidade, não deixem de conhecer esses lugares tão marcantes para tentar apreender a história da evolução material e social dos homens.

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