Enfim cheguei ao meio do Camino.

Quais são meus aprendizados?

Não sei muito bem…

Aprendi que é ilusão achar que depois de 18 dias andando 20 km por dia, mais de 400 km, o seu corpo irá se acostumar. A cada dia o corpo descobre novas formas de doer, a cada dia dói em um novo lugar para se somar a todos os outros.

Aprendi que um saco de dormir, um protetor auricular, remédio para a dor, pomada antiinflamatória, uma roupa quente, um protetor solar, comida e bebida é tudo o que precisamos para viver.

Aprendi que não importa qual língua você fala, claro que falar inglês é 98% melhor ou, neste caso, alemão, que o que tem de alemão aqui não é brincadeira, mas na verdade não importa. Pode até não falar nada, mas está em casa e cada pessoa durante o dia irá te desejar um Buen Camino em bom espanhol. 

Que a vaidade é relativa. Fazem 19 dias que uso a mesma roupa, seja durante a caminhada ou quando chego ao albergue. Não tenho escova de cabelo desde o primeiro dia, meu condicionador acabou, tenho sinais de sol que marcam o passar dos dias. E quer saber?! Nem eu nem ninguém dá a mínima, não é importante. Claro que temos nossa vaidade, queremos ficar minimamente “apresentável”, mas quando chegamos estamos tão preocupados em ficar melhor para andar o dia seguinte que pequenas coisas se tornam, de fato, pequenas coisas.

Aprendi que está em mim imaginar o que poderia ter sido, palavras que poderiam ter sido ditas, reconstruir cada momento importante na minha vida umas 444 vezes e construir imagens futuras com pessoas imaginárias que nunca irão de fato acontecer.

Ainda não sei o que significa, se é minha veia masoquista ou minha veia literária aflorando ainda mais forte que no dia-a-dia.

Reafirmei que a música me serve como um bom analgésico, como morfina, para qualquer dor que eu tenha.

Aprendi que há coisas que ninguém pode fazer por você. Só você pode andar, é um ato particular. 

Que só você pode saber quais dores pode suportar. É inútil tentar fazer mais do que agüenta, teu corpo implora por uma parada, o que não impede de ser realidade que podemos fazer muito mais do que imaginamos. 

Que julgar as dores ou os caminhos dos outros com base nas suas escolhas é pura besteira. Cada um tem um ritmo e suporta suas próprias dores.

Porém é importante saber com quem vale “ajustar” o ritmo. A companhia de algumas pessoas vale o esforço de andar mais rápido ou mais devagar. Mais importante ainda é saber e/ou entender que este ajuste é temporário, como tudo na vida, como a própria vida. 

Tem que estar preparado para seguir sozinha e deixar boas pessoas pelo caminho e também para ver as pessoas seguirem seu próprio caminho sozinhas.

Aprendi que andar é o maior amigos dos pensamentos. Pode aquietar ou fervilhar a mente. E, as vezes, nossas dores internas são tão mais intensas que as dores físicas que mesmo as mais cruéis podem passar despercebidas.

Ainda estou na metade. Aprenderei muito mais ou já tive minha parte?

Aprendi se vale a pena?! 

Vale.

E não vale.

O fato é que precisa estar psicologicamente preparada para encarar isso. 

A solidão, a companhia, as dores, as dúvidas, as certezas.

Tudo faz parte do mesmo pacote, não se pode escolher somente uma das coisas, tudo está interligado e, como na vida, não podemos escolher somente o que nos interessa.

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